
Um busto para o velho Lobo
10 de agosto de 2004 - Jose Rocha
Não é de hoje que ouço dizer que, se Zagallo não fosse brasileiro - mas técnico de futebol de qualquer outra nacionalidade - já teria virado estátua, tantas são as suas conquistas. Esse raciocínio, com o qual concordo plenamente, sempre foi tido como a prova viva de que, no Brasil, não se faz justiça aos grandes vencedores, ainda mais em vida. Meu pai, admirador de Zagallo, do bom futebol, sempre repetiu esse pensamento.
Pois ontem, em São Sebastião do Rio de Janeiro, o velho Mário Jorge Lobo Zagallo ganhou um busto na entrada do Maracanã, que também se chama Mário (Rodrigues Filho), estádio onde ele, o velho Lobo, brilhou tanto como jogador quanto como técnico - vencedor nas duas funções. Um busto - em vida - para o grande romântico que saiu de Alagoas para ganhar o mundo - literalmente.
É a justiça viva, feita a um dos maiores desportistas que o Brasil possui, desde que o mundo é mundo. Zagallo, sinônimo de obstinação - característica muitas vezes confundida com o simplismo da teimosia -, merece a brilhante homenagem que o Rio de Janeiro lhe faz - o mesmo Rio de Janeiro, onde o futebol anda ruim das pernas, lhe agradece quase pedindo socorro para salvar o Maracanã da vergonha em que foram atirados os times cariocas.
Zagallo, a quem Chico Anysio, ferino, define como "aquele que fica ao lado de Parreira, lhe ensinando como se faz", já ouviu vaias, críticas ferozes, mas também ovações memoráveis - talvez não na mesma medida em que conquistou títulos e mais títulos para a seleção canarinha. Ele, o velho Lobo, um supersticioso de mão cheia, carrega o número 13 como se fosse tudo. Não lhe faltam motivos. Nós, súditos da arquibancada, o aplaudimos - treze vezes, se for necessário.
Outros tantos heróis do nosso futebol - uma legião sem tamanho - poderiam ter merecido homenagem e reconhecimento semelhantes: Telê Santana, Mané Garrincha, Canhoteiro, Nilton Santos, Dorval, Julinho Botelho, Quarentinha, Ademir da Guia, etecétera e etecétera, sem falar em Zico, o "Galinho de Quintino", que é estátua no Japão, e faz tempo. O país de Pelé se rende, ao menos uma vez, à estrela - solitária e guia - de Zagallo. São treze estrelas no céu desse alagoano que fez da bola sua ferramenta mais perfeita, absoluta.
Que os deuses dessa bola, ela, tão perfeita e pura, repitam um longo e sonoro amém em todos as vilas, campinhos, favelas, ruas e estádios, grandes ou pequenos, de onde brotam nossos pernas-de-pau e nossos craques. Hoje, eu, que me incluo na categoria dos pernas-de-pau, com orgulho, é bom que fique claro, me rendo a Mário Jorge Lobo Zagallo. Obrigado, velho Lobo. Os que amam o futebol lhe saúdam.Voltar para crônicas de José Rocha
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