
14 de julho de 2004 - Jose Rocha
Eu, que não tenho pressa
Moro numa cidadezinha escondida entre rios e montanhas, no centro do Estado de São Paulo, de onde mando notícias. Mais do que isso, moro numa casa grande, com alpendre - e redes armadas - e um grande quintal de muro alto. É aqui, com minha esposa, filhos, genro e neto - mais meu curió cantador - que mudo as marchas da vida e toco meu passo desapressado, de quem quer o sossego e a paz de espírito que a vida na metrópole não me dava - nem que eu pedisse.
É aqui, sob um céu azul profundo, quando o sol bate, e sob as estrelas, milhares, noite após noite, que desenho as palavras e as frases que me sustentam - e ajudam a sustentar os meus. Não me falta nada. Nem os beija-flores, muitos, que alimento diariamente, eles, que me permitem admirá-los e refletir em que é bom viver, em como é bom acordar todas as manhãs e, desapressado, como sempre fui, e construir o dia, que não quer pressa.
Vida assim, simples, tranqüila, tive algumas vezes, me lembro bem, em Banabuiu, Jaguaribe, mas, principalmente, quando era criança e morava no casarão de meu avô materno, Eliézer de Lima Rocha, no lado direito de quem vai, da avenida Visconde do Rio Branco, em minha Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, que virou um grande quadro vivo na parede aqui de casa. Faz tempo. Faz muito tempo. Trinta e tantos anos lá se vão, tempo afora.
Aqui, diante do meu computador, com os recursos da Internet, mais a TV Diário, que tem meu sotaque, recebo notícias diárias de minha terra, me abasteço de informações e amenizo a saudade, que é uma estrada longa, como bem cantou Almir Sater, meu violeiro de cabeceira. Aqui, alimento beija-flores e escrevo as histórias e os poemas que tomam corpo e andam sozinhos pelo mundo, nas mãos daquele amigo torcedor do meu Fortaleza, no colo daquela moça cheirosa da Praia de Iracema, enfim...
Um dia volto, penso, com meus botões, que sabem muito de mim, mas não tenho pressa - ainda. As redes armadas no alpendre, onde leio o jornal da manhã, de cabo a rabo, todas as manhãs, foram tecidas por meu primo Zé Carlos, que mora em Querência do Norte, lá no Paraná, a quatro horas daqui, ele, o Zé Carlos, que também nasceu em Fortaleza e deve driblar a saudade com os mesmos motivos que eu, bugre que sou, num dia claro qualquer, que lembra os dias claros de minha capital.
Não é ruim viver aqui. Moro numa cidadezinha onde os rios são limpos, as montanhas nos cercam, como que protegem, e a calmaria de um mar imaginário nos acalanta. E eu, deitado na rede, que me dá o sono de quem não quer muito, durmo em paz, enquanto meu curió canta uma canção dos Beatles, que ouço vir do quarto do meu filho. Dá um sono escrever assim! Dá uma preguiça! Por isso, sonho, e sonho muito, porque sonhar faz bem - e Deus me diz, no ouvido, que posso dormir em paz e ainda sonhar.Voltar para crônicas de José Rocha
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