
Da cor do mar que Tim Maia cantava
30 de junho de 2006 - Jose Rocha
Parreira disse ao site da CBF que Argentina e Alemanha não mereciam ganhar, tão fraco foi o futebol apresentado por elas na partida de ontem – em que os alemães venceram na ultrapassada loteria dos pênaltis. É de tirar o sono ler que Parreira achou ruim o futebol de duas das mais fortes equipes desta Copa. Hoje não vou nem dormir, de tão preocupado.
E Dom Carlos Alberto Parreira não gostou que seus palavrões fossem “narrados” pela TV Globo. A poderosa Rede Globo, que se arrasta aos pés da CBF, e não é de hoje, mostrou que é mesmo submissa: pediu solenes desculpas, prometeu nunca mais cometer tamanho “erro”. Como é que vou dormir com um problema tão “sério”? A TV Globo pediu desculpas ao Parreira. Estamos “bem”.
E será que a Seleção Brasileira passa pela da França? E se não passar? O que é que a Rede Globo vai dizer? E do que é que o Parreira vai reclamar? Do gordo salário que recebe para colocar todo mundo lá atrás e – erro dos erros – escalar Ronaldinho Gaúcho quase como um volante? É. Ivan Lins, o compositor, tem razão: o tal “quadrado mágico” do Parreira é mesmo Lúcio, Juan, Emerson e Zé Roberto – retranca da Silva.
E parece que não há outro assunto no Brasil – ou na imprensa do Brasil. Só se fala da Copa do Mundo. Já se falou das bolhas de Ronaldo, de suas namoradas, de seu chilique quando o presidente Lula perguntou se ele estava gordo, de seus recordes... É impressionante como a mídia se entregou ao que acontece na Alemanha. Kaká está com dor de dente? Ronaldo tem calos? Meu Deus! As redações vestem verde e amarelo, parecem quermesses com aquelas bandeirinhas de papel tremulando.
Mas pensa você que esse é um assunto exclusivo do Brasil? Pois se pensa, está errado. Esta semana, a imprensa inglesa, que é uma das piores do mundo e adora um escândalo, andou dizendo que a imprensa brasileira é ruim – por conta da Copa do Mundo. Mas – na sala de imprensa – outro dia, um de uma TV inglesa queria entrar no ar, ao vivo, e um repórter de uma rádio portuguesa estava ao vivo. O “lorde” inglês exigiu silêncio e os dois quase saíram no tapa. Tudo em nome da Copa do Mundo.
É, meu amigo, meu inimigo, não há muito que se dizer. Mas quando a Copa do Mundo acabar, e o Brasil voltar ao normal, voltaremos a falar do futebol brasileiro, que anda escondido, quietinho, mudo, coitado, mero espectador de um espetáculo maior. Só espero que quando isso acontecer, depois do dia 9 de julho, os times sobre os quais escrevo – Fortaleza e Santa Cruz – tenham o que mostrar, porque essa paradinha mundial foi até boa para eles, que descansam do Brasileirão na triste zona de rebaixamento.
Espero que as contratações que os dois times estão fazendo rendam o suficiente para que a região Nordeste (a quem tem o maior número de Estados) não fique de fora do Brasileirão de 2007. Mas tanta água ainda vai rolar – tanto açude ainda vai sangrar nesse inverno -, que é capaz do pobre do Santa Cruz se redimir diante de sua torcida e o Fortaleza rugir, como deve rugir um leão que se preze. E vamos em frente que quem joga atrás é um time de camisas amarelas e calções azuis – da cor do mar que Tim Maia cantava.
José Rocha, escritor cearense, é autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "Vazantes" (Editora Pontes, 2006, no prelo).
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