A seleção da Nike, da Adidas e do Galvão
06 de junho de 2006 - Jose Rocha

O único zagueiro que não falhou nenhuma vez na Copa do Mundo de 2002, Roque Jr., não foi convocado para a disputa de 2006, segundo me informa meu amigo Laerte Laforgia, “porque se desentendeu com Galvão Bueno”. A afirmação mostra bem o nível de critério usado pelo senhor Carlos Alberto Parreira para se chegar ao tão propalado hexa-campeonato mundial.

Laerte, em um de seus e-mails sempre recheados de bons conhecimentos sobre o futebol, me diz que está descrente com o sucesso da Seleção Brasileira, tão badalada pela mídia. É... Badalada mesmo. Qualquer bobagem vira pauta em todos – absolutamente todos – os órgãos da imprensa nacional: as bolhas de Ronaldo (el gordo), o pagode de Ronaldinho (o craque), o estilo coroinha de Kaká (o santo do pau-oco).

Aí tem a história de que as chuteiras de Ronaldo (el gordo) são da Nike – essas chuteiras teriam provocado as “perigosas” bolhas nos pés do moço. Kaká, que não tem bolha, usa chuteiras da Adidas. E é um tal de mostrar a namorada de Ronaldo (o fenômeno das conquistas femininas, apesar da feiúra latente) que dá gosto. Tem repórter que vai ouvir até as ex-namoradas do centroavante (no melhor estilo programas de cultura inútil da Rede TV, oquei?).

Sim, meus senhores, a Seleção Brasileira é um fenômeno de mídia. Laerte me lembra que a de 1982 também era (mas essa passa, meu compadre, porque quem comandava era Telê Santana). O que me parece um problema sério é que a mídia, ela em todos os seus aspectos, se mostra muito mais preocupada com a Copa do Mundo do que com a bandalheira desse tal de MLST (Movimento de Libertação dos Trabalhadores Sem-Terra), do que com o perigoso PCC (que tomou São Paulo de assalto).

Para a mídia, neste momento, e como na Copa do Mundo de 1970, quando cada gol dos canarinhos ofuscava o povo e encobria a tortura nos porões do regime militar, que se dane o que possa ser notícia. Só vira pauta mesmo o que for Copa do Mundo ou coisa parecida. E o povo, ah, esse povo manso do Brasil, adora mesmo uma Copa do Mundo. Basta que ela chegue, de quatro em quatro anos, para que bandeiras verde-amarelas sejam hasteadas da casa mais simples à mansão mais luxuosa – é o ópio do povo, literalmente.

É como se, durante quatro anos sem Copa do Mundo, nem nos lembrássemos de que somos brasileiros, questão cultural bem diferente dos argentinos, dos chilenos, dos irlandeses (e pago para ver quem me desminta). O e-mail de Laerte me cai como uma luva (de bom goleiro) nesse momento em que nos aproximamos de uma eleição para deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e presidente da República.

Que pena que a Copa do Mundo (da qual eu gosto, e muito) faça com que não apenas o povo seja dopado, mas praticamente toda a imprensa do Brasil. Se fosse diferente, poderíamos discutir melhor muitos assuntos ligados ao nosso mundo de verdade, aqui no chão, onde pisamos e temos que ganhar o pão não com a palavra ganhar, mas com a palavra suor. E saber que Galvão Bueno, o poderoso global de Londrina, é capaz de barrar um jogador, me faz rir. E tenho que rir, porque nem essa Seleção Brasileira (da Nike, da Adidas e do Galvão) merece respeito. Vou ver se arrumo coisa melhor para fazer.

José Rocha, escritor cearense radicado no interior de São Paulo, é autor dos livros “Espelho quebrado”, “Batatas fritas ao sol”, “O verbo por quem sofre de verborragia” e “Coração de Leão”. José Rocha escreve aos sábados no portal esportivo www.fanaticosporfutebol.com.br


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