
A síndrome do voto (burro)
06 de junho de 2006 - Jose Rocha
Tenho amigos que me perguntam: mas você é a favor da ditadura de Fidel Castro? Engraçado. Nunca tenho resposta. Guardo comigo essa discussão e é como se isso me fizesse apenas dar de ombros à hipocrisia de nossos parlamentares (ou caras-de-pau, que melhor lhes cabe) e a essa cultura (poderosa) do voto, extremamente burra (quer maior burrice do que, através do chamado sufrágio universal, dar poderes inimagináveis a gente como Antônio Carlos Magalhães - avô e neto, não sei qual o pior), Roberto Jefferson, Paulo Maluf e outros Blue Caps?
Vejo a pergunta (“mas você é a favor da ditadura de Fidel Castro?”) como uma prova da ausência de um assunto melhor para se discutir. É um pensamento simplista demais para os meus neurônios e para a minha hipertensão. Não me preocupo com essa questão, mas hoje resolvi escrever amparado nela. Gosto, sim, da ditadura de Fidel Castro. E daí? Gosto de repetir a frase do escritor Fernando Morais de que não sei quantos milhões de crianças dormem na rua em todo o mundo, todas as noites, mas que nenhuma delas é cubana (não sei os número e não os vou procurar, a afirmação me basta e pronto).
Escrevo isso um pouco porque recebi, no Orkut, a mensagem de um morador da cidade de Osasco (que não cita Osasco, mas sei que ele é de lá, até porque o conheço pessoalmente), revoltado porque um suposto morador de rua estaria no seu portão numa noite dessas. Ele diz, em sua mensagem, que, ao chegar em casa, viu o morador de rua (que ele chama de "doente mental"), soube que os filhos tinham lhe alimentado – mas o questionamento dele está em: onde e como pedir ajuda para um órgão público, nesse caso especifico para a prefeitura. Ora... Essa questão me parece muito mais de informação do que de tiro ao alvo, como ele faz, disparando a esmo. Cada um de nós tem que saber onde e como pedir ajuda (ou oferecer ajuda). Não precisava, e não abro mão desse pensamento, postar uma mensagem numa comunidade como o Orkut, no pior estilo: “Ai, como eu sou revoltado!”.
É muito fácil jogar a culpa no outro – não estou aqui defendendo a prefeitura de lugar algum, por favor. É muito fácil agir assim. Tenho comigo que a atitude dos filhos desse rapaz foi mais inteligentes e mais útil – resolveram o problema e a coisa só se complicou quando ele, o pai, armado de um raciocínio estreito, chegou para fazer o discurso inócuo que fez – propagado, inclusive, na Internet, essa espécie de teia que reúne o sério e o absurdo quase que na mesma proporção. É fácil demais fazer discurso. É prático. É burro, antes que eu me esqueça, Eu não tenho que dar ajuda e descer o sarrafo. Que diabos de comportamento doido é esse? Eu ajudo meu semelhante e subo no banquinho para fazer comício? É brincadeira, não? Eu dou a ajuda e fim de papo (não acho que seja da conta de ninguém). Não grito aos quatro cantos que eu, primeira pessoa, ajudei alguém - isso é de uma hipocrisia que me dá nos glúteos.
Eu sei que o caso de Osasco não tem nada a ver com Fidel Castro (ou com sua ditadura), mas é que me deu vontade de escrever assim, e esse é um problema absolutamente meu, eu bem sei. Só quero é fazer um paralelo (palavrinha mal usada essa) entre o que reclamamos (nós mesmo, todos nós) e o que fazemos na hora de colocar na urna o tal do voto. Normalmente, e não sei se isso é normal, parece que, diante da urna, nos esquecemos do poder de fogo que temos e fazemos bobagens espetaculares, como eleger o doido do Enéas Carneiro, um fascista assumido, com mais de 3 milhões de votos (para deputado federal).
Um pai que elege Enéas Carneiro tem direito de reclamar porque a prefeitura de determinada cidade não estava ali, na hora em que o “doente mental” (aspas porque a definição não é minha) estava na sua porta? Ora, meus amigos e inimigos (que sejam poucos): o buraco é, às vezes, mais embaixo ou mais em cima. E só estou rodeando essa discussão porque este é um ano de novas eleições – muito provavelmente com velhos vícios. Novos Enéas serão reeleitos. Novos ACMs e etecétera. Vai dar na mesma. Porque o grande problema está em nós mesmos – e esse Congresso, talvez o pior da história republicana, é reflexo do nosso pensamento, como o desse moço osasquense, que odeia a ditadura de Fidel, mas que ama brincar de dar poder a gente suja. Ufa!
José Rocha, 46, é autor de quatro livros: "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia" e "Coração de Leão".
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