
Nós, os vices e o caos
20 de maio de 2006 - Jose Rocha
A guerra entre o PCC (Primeiro Comando da Capital), uma organização criminosa que nasceu dentro das cadeias, e as autoridades policiais de São Paulo, é apenas uma amostra – triste - do quão sem comando e autoridade anda o Estado mais rico do país.
Essa guerra, em que pessoas inocentes – todos trabalhadores – têm sido mortas por conta de uma demonstração de força do tal PCC, é a revelação de um velho câncer que devora – sem medo e sem respeito - as entranhas viciadas do poder.
Pobre da população do Estado de São Paulo, que tem no comando de seu governo uma figura apática e sem o menor pulso como o “governador” Cláudio Lembo (as aspas são propositais e por minha conta). Ele mesmo, que, no meio do caos que tomou conta do Estado, chegou a dizer que estava “tudo sob controle”.
Cláudio Lembo, uma das figuras mais sem brilho e insossas da história republicana, é (creiam) um baluarte do PFL, partido que anda de mãos dadas com o PSDB desde que o tucanato “nasceu” de antigas divisões no PMDB – e faz um papel absolutamente ao seu estilo: horroroso.
Vice de Geraldo Alckmin, que sonha ser presidente da República (com outro vice do PFL, José Jorge, ex-ministro de FHC), Cláudio Lembo dá de ombros ao apoio – legal e não político - do governo federal (porque o governo federal está com o PT) e diz que não precisa do Exército, nem da Polícia Federal, enquanto contamos os mortos.
Cláudio Lembo não existe. Só é governador porque as leis que regem a nossa democracia, infelizmente, fazem com que o povo - obrigatoriamente - vote num vice na hora em que vota no seu candidato escolhido, sem direito a questionamentos. O vice é, por isso mesmo, um sub-produto da questão eleitoral, vem embutido – é por essa barbaridade antidemocrática da democracia brasileira que Lembo está – e não é - governador.
Seria ingênuo da minha parte imaginar que o Congresso Nacional vai (um dia) mudar essa regra medonha. Os senhores senadores e deputados federais, em sua larga maioria, só mudam o que eles querem – e o que lhe convém – do mesmo modo que transformam em palanque eleitoral um assunto tão sério como a bandalheira do PCC, e não adianta o “coronel” Antônio Carlos Magalhães espernear quando o ministro da Justiça, Márcio Tomás Bastos, os critica.
É o caos. Não temos escolha. Nenhuma. Somos vítimas de todo o mecanismo que criaram – para citar Raul Seixas quase sem querer. Engolimos as balas do PCC – e as bobagens de Cláudio Lembo, mais um vice que nos foi enterrado goela abaixo. E como nos têm empurrado lixos assemelhados (espinhosos) pela garganta! É uma fartura.
Vivemos no Estado de São Paulo. Por isso mesmo, estamos aprisionados em nossas cidadezinhas antes bucólicas, pacíficas – hoje cheias de presídios construídos por décadas de desmandos do PSDB (não foi outro partido), que agora toca o carro-de-boi da Febem para dentro de nossos quintais (por obra e graça da irresponsabilidade do senhor Geraldo Alckmin).
Acabaram com nosso sossego. Destruíram nossa paz e a transformaram em uma bela e imponente pilhéria da política nacional, que não merece o menor respeito – e nem vou entrar no mérito de que nunca houve um projeto voltado para a Segurança Pública, principalmente na esfera federal. Esquerda e direita nunca tocaram no assunto, nunca se interessaram. É em hora como essas que fico com pena de nós mesmos, entregues aos interesses de bandidos e políticos – no pior sentido que houver.
Deus nos proteja.
José Rocha, 46, é autor de quatro livros: "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia" e "Coração de Leão".
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