A revolução rasgada
12 de agosto de 2005 - Jose Rocha

No dia da posse do presidente Luis Inácio Lula da Silva - em quem votei e voto desde 1982, quando foi candidato ao governo do Estado de São Paulo; e a quem conheci pessoalmente durante um congresso do Partido dos Trabalhadores no Colégio Caetano de Campos -, o presidente cubano Fidel Castro, que estava em Brasília, disse que "não se faz uma revolução sem armas".

Hoje, diante do que alimenta a mídia e a elite, que é dona da mídia - as sonhadas CPIs que a oposição tanto queria -, vejo que Fidel, mais uma vez, estava certo. Lula, antes disso, também estava, quando disse que "há trezentos picaretas" no Congresso, máxima dita por ele quando foi deputado federal constituinte, que muita gente parece esquecer ou omite.

O senador amazonense Arthur Virgílio, do PSDB, que se apregoa o "paladino da vingança e da moralidade", como se seu partido fosse um convento e ele um frade franciscano, vem a público e diz que Lula deve ser cassado. Faz-me rir o maquiavélico senador, que sabe, como eu, que o Brasil sofre do mal da massa de manobra: aqueles que vão no desenrolar da língua de outros.

Que moral, pergunto eu, tem o PSDB, que governou esse país durante 8 anos, com a misteriosa e suspeita emenda da reeleição de Fernando Henrique (o sociólogo que cuspiu nos livros que escreveu), para falar em cassação de Lula? Que moral tem a alma gêmea do PSDB, o PFL, para usar o mesmo tom?

Se eles têm essa moral, isso pode me fazer supor que os novos "caras pintadas" - providencial invenção da Rede Globo - vão seguir o bloco PSDB-PFL, que está mordido com a ausência do poder. O PFL, então, nunca soube o que é ser oposição. Eles, os pefelistas, sempre estiveram às sombras do Palácio da Alvorada.

Faz-me rir a aberração que ensaia se espalhar pelas massas de manobra de um Brasil diferente, mesmo a contragosto de tantos coronéis disfarçados de deputados e senadores.

Fidel Castro estava certo. Pelo voto não existe revolução. Lula estava certo. Há trezentos picaretas no Congresso Nacional. Eu, cãs do meu canto, cuja única arma é o voto, espero uma avalanche de votos nulos nas eleições de 2006, que vão acontecer, sim, queira os "santos" parlamentares tucanos ou pefelistas.

Eu, que ainda acredito na ideologia e me nego a ter os ombros dobrados pela tática de convencimento dessa elite medíocre, que, como diz Rita Lee, "quanto mais quem, mais quer", quero ainda crer que haja homens sérios no Brasil. Porque se a irresponsável (e eventual) cassação do presidente Lula acontecer (não se pode duvidar de nada na Pátria de Chuteiras), eu rasgo meu título e faço campanha pela minha revolução rasgada.

José Rocha, 44, é autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "A lua do meio-dia" (no prelo).


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