
O presidente é uma ilha
21 de fevereiro de 2005 - Jose Rocha
O ministro Ricardo Berzoini acenou positivamente, há alguns dias, com o fim do imposto sindical compulsório, cobrado uma vez por ano de qualquer trabalhador com carteira assinada – disse que, em seu lugar, vai nascer a contribuição sindical negocial, que tem um nome horroroso até para a qualidade do texto de quem se arvora a escrever sobre o assunto.
A informação do ministro está no texto da reforma sindical que o governo apronta para chegar ao Congresso no dia 2 de março. Outra das alterações previstas na reforma, que vai dar muito pano pra manga, é a extinção de sindicatos “pouco representativos” e “cuja principal função é a de arrecadar dinheiro”. Berzoini está convencido de que o projeto desmonta a velha estrutura sindical corporativa, “caminhando para um modelo mais moderno de liberdade de organização e de sustentação democrática dos sindicatos”. As aspas desses três primeiros parágrafos registram exatamente o que o ministro declarou à imprensa e não o que eu penso.
O paradoxo está no fato de que, segundo Berzoini, a proposta a ser enviada ao Congresso não é a que o governo defendia – o governo, e o presidente Lula, que, como todo mundo sabe, veio do movimento sindical, sempre foi a favor do pluralismo dos sindicatos.
Cabe perguntar o que fez com que o governo mudasse de idéia e iniciasse a preparação de um projeto que, como disse o próprio ministro, não é a dele. De acordo com o que deu na mídia, “a proposta resulta do diálogo”, onde todos cederam: governo, trabalhadores e empresários.
Pois bem. Isso quer dizer que o governo não está colocando em prática o que foi prometido na campanha eleitoral e, pior, em toda a história do Partido dos Trabalhadores. As palavras de Berzoini, que já fez besteira em um ministério e foi agraciado com outro, quando deveria ter sido mandado de volta à sua cadeira de deputado, são a prova mais fiel de que algo mudou – e muito.
Não sou a favor de nenhuma cobrança compulsória e defendo, sim, a reforma sindical, mas quando o PT envia para o Congresso uma proposta admitida como diferente da que fez parte de todos os seus 25 anos de história, levanto minha mão e digo que “há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Os partidos de oposição, sabedores de que, no ano que vem, teremos novo pleito para presidente da República, já começam a bater. O PDT, em suas vinhetas gratuitas no rádio e na televisão, usa a imagem – carismática, sim - de Leonel Brizola – até porque lhe falta um nome forte, e vivo – para cutucar o governo com vara curta e de ponta afiada.
O PMDB faz o mesmo, com Orestes Quércia “chutando o balde” do antigo apoio. Logo, virão o PFL – com seu canarinho de garras reluzentes –, o PSDB e sua voracidade de voltar ao trono, o PPS – que tem em Roberto Freire um dos mais claros exemplos de um xiita fora de ordem - e outros menos cotados.
Enquanto isso, o governo faz besteira. Saído de um dos partidos mais organizados e hábeis de toda a história da República, o governo federal dá munição de sobra aos adversários, algo como um time de defesa ruim, cujos zagueiros entregam a bola nos pés de um desses “matadores” da camisa 9, para fazer um comparativo típico do presidente: o futebol.
A continuar nesse passo, Lula, que não tem o domínio de seu partido, nem de seus ministros, muito menos de seus aliados, corre o sério risco de perder as eleições de 2006. O jornalista José Luis Datena costuma dizer que “morre abraçado com o presidente”, porque Lula “é um homem bem intencionado”.
Não discuto que Lula é um bom sujeito e que tem boas intenções, mas lá se vão mais de dois anos de governo e os planos de Lula não ganham força, não criam o fato político necessário para que sua votação em 2002 seja repetida – mesmo que de longe.
Cercado de incompetentes por todos os lados, o presidente é uma ilha bombardeada tanto por membros do PT quanto por “aliados”, ex-aliados e inimigos mortais. Nota-se claramente que Lula anda sozinho, brilha pelo mundo afora, mas não tem outros Lulas em seu governo.
É uma pena que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não esteja conseguindo levar adiante seus projetos mais ambiciosos e necessários para o Brasil, porque quem sofre, se ele falha, é o povo, sofrido, machucado, sem esperança no futuro, mesmo com os números – positivos – da economia.
Lula precisa tomar o arreio de volta e reconduzir os rumos de sua plataforma ou corre o risco iminente de sair de Brasília como uma das maiores decepções já vistas, não porque seja desonesto, o que ele não é, nem porque tenha cometido erros, mas por ter cedido demais a um, a outro e a todo um conjunto de coisas que não fazem parte de sua história.
Ricardo Berzoini, por exemplo, nem deveria mais ser do governo, e faz tempo. José Genoíno, nosso conterrâneo, poderia falar menos e obedecer mais, até porque nem cargo no governo ele tem, mas manda que dá gosto. Da mesma forma, o presidente se aproximou demais de ex-integrantes da tropa de choque do ex-presidente Collor, como Roberto Jefferson, ou todo mundo já esqueceu quem o petebista é?
Tenho pena de Lula. Quando o vejo questionando vaias, corrigindo besteiras de seus assessores, acho que ele deveria dar um murro na mesa e mostrar quem manda, mas parece que algo na máquina federal está falhando. José Dirceu, o chefe da Casa Civil, que não foi exonerado quando do escândalo Waldomiro, continua mais poderoso do que devia, e Lula, um político sério, vai perdendo espaço aqui, no Brasil, enquanto é estrela – sem trocadilho com o símbolo máximo do PT – em Davos. É uma pena.
José Rocha, 44, é autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "A lua do meio-dia" (no prelo).
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