
Rosinha, Severino e a "Senhora do Destino"
18 de fevereiro de 2005 - Jose Rocha
A governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus (PMDB), que não perde a pose, aproveitou a derrota do PT na eleição do presidente da Câmara Federal, onde os partidos foram atirados no lixo e os senhores deputados brincaram de deputados, disse que a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) mostrou que o Congresso “não agüenta mais o PT”.
Para mim, a afirmação da governadora, cujo Estado é um caos absoluto, é, no mínimo, leviana e oportunista – seu marido, o dublê da rainha da Inglaterra, Anthony Garotinho, é – e que Deus nos proteja – candidato a candidato ao lugar hoje ocupado por Lula. Por isso mesmo, não é de se estranhar que sua mulher – afinal, no Rio, tudo se resolve literalmente em casa – coloque álcool no incêndio.
Hoje recebi um artigo do presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno, analisando a derrota na Câmara. O líder petista avalia que o PT cometeu sérios erros de avaliação e que os deputados não votaram em Severino Cavalcanti porque ele seja um santo (o que não é mesmo, nem de longe, esse senhor que está na política desde a UDN e que já se filiou a nove siglas diferentes). Os deputados – inclusive as traíras petistas – votaram em Severino porque tinham o interesse em votar contra o governo e ganhar 9 mil reais de aumento no “pobre” salário que recebem.
Rosinha Matheus Garotinho e seu Garotinho vão processar o ator Eduardo Moscovis, que interpreta o prefeito mau-caráter de Vila São Miguel, Reginaldo, na novela “Senhora do Destino”. O motivo? Moscovis disse, em depoimento à revista “Veja”, que se inspirou no casal Garotinho para compor seu personagem – um político corrupto e chantagista que age com a cumplicidade da primeira-dama, Viviane, interpretada por Letícia Spiller.
O vilão da novela é um político populista, característica que adversários também atribuem a Garotinho e Rosinha. O governo do Estado do Rio de Janeiro está em polvorosa, ofendido pelo que disse, em boa hora, o excelente ator da Rede Globo, que, na entrevista, não mediu palavras para dizer de onde tirou um político tão ruim – em todos os aspectos.
Enquanto a “santidade” do casal Garotinho cai por terra, vem essa senhora dizer que o "pula-partido" Severino Cavalcanti vai fazer uma Câmara Federal “mais democrática” e que o seu PMDB “está cada vez mais forte”. Questionada sobre o seu partido não ter apoiado Severino a princípio, ela se defendeu: “Mas o apoiamos no segundo turno”.
Quer dizer que Severino agora é o símbolo da modernização, da democracia, do novo, da moral? Um político como ele, que segundo ele mesmo, fazia oposição a Getúlio Vargas “quando ele era vivo” (sic), é o novo exemplo de como se conduz o mundo da política brasileira, onde ainda não temos fidelidade partidária, onde ideologia é apenas uma palavra com oito letras e onde o povo, que elege esse outro povo, é inocente de dar dó.
Não me resta outra alternativa senão rir do que eles – esses políticos – fazem conosco. Marido e mulher mandam (de fato e de direito) no pobre Rio de Janeiro, dominado pelo tráfico e pela violência, que parece não incomodar o casal. Deputados – lobistas de primeira, grandes latifundiários, como os que fomentam o caos no campo, vão e voltam de Brasília sem apresentar um projeto sequer – nenhum, faço questão de ressaltar. Mas sempre se reelegem.
E por que eles voltam? Porque o povo os elege – nenhum é galgado ao cargo por golpe. São eleitos mesmo, como o foi o doido do George Bush, que não respeita nem a ONU, quanto mais o Protocolo de Kyoto. É, meu caros amigos, estamos em péssimas companhias. Mas e o povo de Pernambuco, o que pensa do aumento de 9 mil reais que Severino Cavalcanti quer dar a seus coleguinhas?
Seria bom perguntar para aquele povo que sofre na Zona da Mata, no semi-árido, o que eles acham de tão moderna e “democrática” atitude, como disse Rosinha. Eu vou dizer uma coisa: é bom ir rezando, porque só Deus salva (não o deus usado hipocritamente para criar partidos, como o da Igreja Universal, como todo mundo sabe). Mas nem tudo está perdido. Se o povo tomar vergonha, é possível que os “trezentos picaretas”, como disse Lula, na época da Constituinte, nunca mais voltem à Câmara, que deve representar a Nação e não se passar por um circo onde nós somos os palhaços. Que situação!
José Rocha, 44, é autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "A lua do meio-dia" (no prelo).
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