
14/06/2004 - Jose Rocha
Eu mesmo não
Não. Veementemente não. Ninguém jamais vai ouvir de mim, eleitor de Lula desde quando ele se candidatou a governador de São Paulo, em 1982, quando eu tinha inocentes - verdes e esperançosos - 22 anos, que estou decepcionado com seu governo. Nunquinha. Da Silva que eu vou dizer isso.
Não vou nem escrever uma barbaridade dessas - por vários motivos. Primeiro, votei nele para presidente. Depois, se admitir que estou decepcionado, com que cara é que eu fico? Ah! Já sei. De cachorro caído de mudança - tiradinha velha demais. Não vou usar.
Lembro-me de um amigo artista plástico, o Carlinhos Da Bica, lá de Brotas, que, às vésperas das eleições de 2002, soltou: - Eu vou votar no Lula, mas se ele não fizer nada, rasgo meu título de eleitor!
O poeta Carlos Drummond de Andrade, um dia, de cima dos seus mais de 80 anos, disse que já tinha votado em todo mundo, principalmente nos comunistas, nos quais ele acreditava - religiosamente! -, chegou a declarar, um dia, que, a partir daquele dia, todos os seus votos seriam nulos. E cumpriu a palavra.
Viu como é sério? É mesmo. Para quem leva a sério. Porque, para quem não leva e vota, por exemplo, e com licença da palavra, no Paulo Maluf, que nos tira do sério, o engasgo passa incólume. Quem se decepciona com um governo desse senhor? Ele é capaz de dizer que, se Celso Pitta não der certo, não votem mais nele, e tem quem vote. É demais. O Maluf é forçar demais.
Lula, não. Lula, com todo o seu histórico, sua trajetória de vida, de luta e sofrimento, com toda a expectativa criada em torno de um governo seu, é muito diferente. Faz diferença dizer que se está decepcionado com um governo de Lula. Faz muita diferença. E eu nem sei porque citei o Maluf aqui. Deve ser por implicância mesmo. Maluf e nada? Nada!
Mas o Lula, minha gente, o Lula. Como dizer que estou decepcionado com o governo do Lula? Não seria eu o pelego a admitir tamanha calamidade. Aquele meu amigo artista plástico pode até ter rasgado o título dele. O Drummond poderia ter lá suas razões - que a minha razão desconhece. Mas e eu? Eu votei no Lula. Diferente dos milhões de eleitores que votaram em Fernando Collor, e que não se sabe quem são (sempre me pergunto como é que ele foi eleito se seus eleitores sumiram), eu não nego: votei, sim, no Lula, inclusive contra o Fernando Collor - e, duas vezes, contra o outro Fernando, o Henrique, primo do Pedro Cardoso.
Será que a culpa não é do Palocci? Será que é do Zé Dirceu? Do Mercadante? Mas nesse eu também votei, pô! Espera! Será que isso é coisa do grupo do Lula dentro do PT, a Articulação, que expulsou a senadora Heloisa Helena, o Babá, a Luciana Genro? Expulsou e criou um novo partido, o SOL (a Heloisa Helena disse isso no "Programa do Jô": o partido dela vai se chamar SOL, que parece marca de esponja de aço, de sabão em pó).
Meu Deus! Se a culpa não é nem da Articulação, a tendência de Lula, e não da articulação que eles fizeram com Deus e o Diabo na Terra do Sol, a culpa é, meu São Francisco do Canindé, daquele vice doido, dublê de Itamar Franco, que o Lula tem. Coisas das alianças que o PT fez com PL, PTB, PC do B, PDT (esse, do Brizola, aquele que casa e trai na lua-de-mel). Casamento mais esquisito esse que o PT fez. Foi muita aliança. É por isso que o casamento, instituição que respeito, com suas alianças, tem que ser pensado, se possível, duzentas vezes - um ajuntamento, às vezes, sai melhor.
Quer saber? Eu nunca vou admitir coisa nenhuma. De mim ninguém vai ouvir que estou veementemente decepcionado com o governo Lula. Se eu disser isso, pensemos juntos, não ficarei com cara de cachorro caído de mudança. Isso não. Cachorro caído de mudança? "É o novo", Neno Cavalcante! O máximo que posso ficar, digamos assim, é com cismas e, a cismar, sozinho, desapressado, no meu canto, e que ninguém me ouça ou leia, posso esbravejar, sem medo de ser feliz:
- E agora? O que é que eu faço?
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