
O impacto profundo da Nasa
18 de janeiro de 2005 - Jose Rocha
A Nasa lançou uma sonda espacial que passaria desapercebida se não tivesse um nome tão hollywoodiano e perigosamente sugestivo como a Deep Impact (impacto profundo, em português), que parece mais coisa saída de filmes que do audacioso (e caro) programa espacial dos Estados Unidos.
A missão da sonda é bater de frente com um cometa, o Tempel 1, astro de forma irregular e cerca de 6,5 quilômetros de diâmetro, que dá uma volta em torno do Sol a cada cinco anos e meio. A tal da Deep Impact, que custou nada menos que US$ 267 milhões, deve abrir um buraco no meio do cometa, algo do tamanho de um Maracanã, para que os cientistas aprendam mais sobre os cometas e o começo do mundo.
É a primeira vez que a Nasa usa a força bruta, mas, como estamos na era Bush, nada mais me surpreende. A pancada vai ser grande. Numa velocidade de 37 mil quilômetros por hora, uma cápsula vai se espatifar contra o núcleo do cometa, que está a apenas 431 milhões de quilômetros da Terra.,br>
Segundo os cientistas norte-americanos, apesar do aspecto de violência da missão, a trajetória do Tempel 1 não será alterada. Um deles, Don Yeomans, garante que o choque será “o equivalente astronômico de um avião de passageiros 767 se chocar com um mosquito”.
Curiosamente, a data escolhida para a paulada foi o dia 4 de julho, data da Independência dos Estados Unidos. Meu filho Thiago, revoltado com a ousadia da Nasa e os gastos da missão, me diz;
- O Bush quer uma queima de fogos sobre nossas cabeças no 4 de julho.
O raciocínio faz sentido, penso, e esse é o problema. Eu, de cima dos meus quarenta e poucos anos, confesso a vocês que tenho mais medo do Bush do que de lobisomem. E explico a meu filho que o Bush pai, quando foi presidente da maior potência armamentista do mundo (mas que se preocupa demais com as armas dos outros) tinha um projeto não menos cinematográfico, o “Guerra nas Estrelas”.
Concluo que os Bush, pai e filho, colocam em risco a existência de vida na Terra. A Nasa não tocou essa loucura adiante sem o conhecimento do bushinho. Ali tem o dedo dele – e o dedo do bushinho pode mais que os do John Wayne e Jesse James juntos, e olha que eu nem vou citar o Durango Kid, que era o meu favorito no tempo da TV Empire (coincidentemente império, em português).
Minha mãe, dona Letícia, que foi para o céu em outubro, repetia sempre que tudo o que está acontecendo não a assustava, nem surpreendia:
- É bíblico, me dizia ela.
Bush, Bin Laden e Sharon, vou conferir, devem, então, estar na Bíblia, que minha mãe lia todos os dias, só que no livro do Apocalipse. Isso me dá um medo danado – maior que o Maracanã que essa Deep Impact vai abrir no cometa. Pensando bem, e ouvindo cá os conselhos de minha esposa, que também lê a Bíblia, é melhor abrir o livro de Gênesis e tentar dormir em paz.
José Rocha, 44, é autor dos livros “Espelho quebrado”, “Batatas fritas ao sol”, “O verbo por quem sofre de verborragia”, “Coração de Leão” e “A lua do meio-dia” (no prelo).
Voltar para crônicas de José Rocha