
O sertão passa longe dos “sertanejos”
16 de dezembro de 2004 - Jose Rocha
O maestro Rogério Duprat deve ter um ataque cada vez que liga o rádio - para falar a verdade, nem deve ligar ou ter rádio. Para que? O rádio está ruim - não o jornalístico, que, no Brasil, anda cada vez melhor: o rádio musical, das AMs e FMs que nos arrebentam todos os sentidos.
Quando Rita Lee disse que uma espingarda de dois canos seria a solução para acabar com tanta dupla “sertaneja” (notem as aspas), teve gente que subiu nas tamancas – Leonardo, por exemplo, que, travestido de Fábio Jr., ainda é chamado de “sertanejo”. Ele e Daniel, aliás, que, como bem disse Rolando Boldrin, é um cantor romântico (o sertão passa longe dessa gente).
O curioso é que boa parte deles vem do Estado de Goiás (num CD com hinos de times de futebol, Zezé Di Camargo chega a cantar o hino do Goiás Esporte Clube como se fosse uma dessas “pérolas” da “dor de corno”). O “sertanejo” que toca no rádio está para o Estado de Goiás como a praga da axé music (“se joga!”) está para a Bahia.
O pior é que nasce uma dupla “sertaneja” a cada dez segundos. O vírus é forte. Em meia hora, talvez menos, ele está no “Domingão do Faustão” (quem te viu, quem te vê, Fausto Silva!), no programa do Gugu Liberatto, todo com nomes mauricinhos, tipo Pedro e Thiago, Hugo e Tiago (esses criados pela TV Globo e seu deprimente “Fama”, os anteriores parentes de Leandro e Leonardo), além de Clayton e Camargo e afins.
Se esse vírus nasce em dez segundos e em meia hora está na mídia, em 45 minutos (o primeiro tempo de um jogo) já tomou conta do Brasil inteiro. É uma verdadeira praga de gafanhotos –estão na boca do povo. Aí vem um idiota e me diz que “a voz do povo é a voz de Deus”. Se for assim, Deus votou no Collor? Deus votou no Pitta? Deus elegeu Afanázio Jazzadi? Vamos respeitar Deus, que não tem nada com isso.
Fico pensando, cá com minha viola, e é viola mesmo, até quando o Piska, aquele mesmo, que era guitarrista do Casa das Máquinas – sim, o grupo de rock! – vai continuar a produzir sucessos do “sertão” dele. Idolatrado por 15 em cada 10 “sertanejos”, acho que Piska é uma espécie de hospedeiro desse vírus, que, infelizmente, vai longe e promete estragos maiores.
José Rocha, 44, é autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "A lua do meio-dia" (no prelo).
Voltar para crônicas de José Rocha
© All rights reserved.
Contact: Portal Nossa Lucélia Powered by www.nossalucelia.com.br