Porque José Dirceu persegue Suplicy
20 de novembro de 2004 - Jose Rocha

Acabo de ler, na "Veja", um oportuno artigo de Thaís Oyama, "A solidão do senador", que aborda, com inteligência e sóbrio conhecimento de causa, o isolamente do senador Eduardo Suplicy no Partido dos Trabalhadores, principalmente depois da derrota de sua ex-mulher, Marta Suplicy, para o tucano José Serra, nas eleições municipais de São Paulo.

O grupo da prefeita, "por meio de um obscuro secretário" de sua administração, acusou publicamente o senador e atribuiu a ele a parte da culpa pela derrota do PT na campanha paulistana. Esse grupo, do qual faz parte o poderoso ministro José Dirceu, liderado por ele, quer acabar com a carreira política de um dos nomes mais importantes e sérios da política nacional, não apenas do PT, do qual Suplicy é um dos fundadores.

Com o grito de "vamos combater os infiéis", o Chefe da Casa Civil, em tom irônico, mostrou, para quem quisesse ouvir, em encontro com o senador, de quem se autoproclama seu "inimigo para sempre", que sua vingança é poderosa e tem Eduardo Suplicy como alvo absoluto. Essa autodefinição de "inimigo para sempre" foi "vomitada" por José Dirceu desde que o senador defendeu a colega Heloísa Helena, expulsa do PT por seguir as regras do próprio PT - engula-se.

Dirceu, o rancoroso, seguido por fiéis e cegos adoradores dentro do que já foi o partido mais coerente - e com cara de partido - que este país já viu, não vai descansar enquanto não tiver seu objetivo "no chão da fábrica", para usar um termo de Lula, nem que seja com a ingênua, adolescente e infeliz idéia de lançar a ex-mulher de Suplicy, ela mesma, Marta, que perdeu de si mesma, candidata ao Senado em 2006 - Em vez do Suplicy, a Suplicy, nas contas do istalinista caipira.

Mas por que José Dirceu toma para si as dores dos que se sentem incomodados por Suplicy? 1. Suplicy apoiou o pedido do PSDB de, em 2001, a abrir uma CPI para investigar irregularidades na contratação de empresas de lixo por parte da prefeitura de São Paulo. 2. O senador insistiu na idéia de que o PT deveria realizar prévias para definir quem seria seu candidato à Presidência da República em 2002: ele ou Lula. Esse gesto de Suplicy é considerado "pecado mortal". 3. Suplicy defendeu a senadora Heloísa Helena antes de sua expulsão do PT, em 2003, porque ela votou contra a reforma da Previdência. 4. Suplicy disse, que, em nome da transparência, o ministro José Dirceu, envolvido na explosão do caso Waldomiro Diniz, deveria ir ao Congresso "dar explicações sobre as denúncias de corrupção" do ex-assessor do homem forte do governo. 5. O senador petista gravou mensagens de apoio à candidatura da candidata do PT às eleições de Fortaleza, Luizianne Lins, quando o comando petista, incluindo Dirceu, apoiava Inácio Arruda, do PC do B. É engraçado - mas preocupante - ver que todas os "pecados" cometidos por Eduardo Suplicy são os que gente como o arrogante José Dirceu e seus seguidores deveriam fazer. É ridículo observar que o Chefe da Casa Civil, o "dono do PT", quer punir não quem agiu contra tudo o que o partido prega, mas quem agiu a favor.

Não encontro a palavra adequada para classificar o comportamento do ministro. Ou ele pensa que somos todos burros ou somos mesmo todos burros.

Na vingancinha babaca de José Dirceu vale tudo, menos ser coerente, correto, sério e nunca ter tido seu nome envolvido em qualquer escândalo, desses do gênero Waldomiro Diniz - ou nas brigas de galo do marqueteiro Duda Mendonça.

Deu a louca no partido que sonhei ver no poder. O ministro stalinista quer porque quer e pronto e quem quiser que vá embora. José Dirceu, que já mereceu meu respeito, mas de quem nunca gostei, desde que o conheci pessoalmente, de óculos escuros, no melhor estilo policial, sem mostrar para onde olha, na residência do casal Luiz Carlos e Dirce Gomes, em Barueri, na Grande São Paulo, nos anos 80.

E deu a louca - mesmo - no PT, via Dirceu: Marta pode ser candidata ao senado, presidente nacional do partido, embaixadora e até candidata à Presidência da República. Tudo para derrubar Suplicy. É. E depois os petistas mais tresloucados dizem que Suplicy incomoda. Incomoda mesmo. E José Dirceu dá vergonha.

José Rocha, 44, escritor, cearense de Fortaleza, é autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "A lua do meio-dia" (no prelo). Contatos com o autor: joserocha@netsite.com.br

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