A derrota de Marta e o "samba do crioulo doido"
05 de novembro de 2004 - Jose Rocha

O secretário de Abastecimento e Projetos Especiais da prefeita Marta Suplicy, um tal de Valdemir Garreta, de quem não se sabia nada antes de sua busca de notoriedade na "Folha de São Paulo", deveria ter ficado de bico fechado - trocadilho proposital com o publicitário Duda Mendonça, que meteu o bico onde não deveria (leia-se rinha de galo), principalmente pelo cargo que o marqueteiro ocupa junto ao governo federal, por quem é pago, e bem pago.

Ele, Valdemir Garreta, que faz parte da panelinha de Duda Mendonça e do atual marido de Marta Suplicy, o argentino Luís Farve, acusou o senador Eduardo Suplicy de ter "aumentado o preconceito contra a prefeita, contribuindo para a sua derrota" para José Serra na eleição de 31 de outubro, coincidemente o chamado "Dia das Bruxas".

O motivo, segundo o emergente Garreta, que, dizem, busca disputar as eleições de 2006, seria o fato de que Marta não venceu porque se separou do senador, defendido na tribuna do Senado até por adversários como Heráclito Fortes, do PFL do Piauí, e Tasso Jereissati, do PSDB do Ceará.

Sabidamente admirado pela oposição, do PP ao PSDB, o senador Eduardo Suplicy repetiu que apenas tinha sido contra a tática do marqueteiro Duda Mendonça de bater em José Serra como arma para vencer as eleições. O próprio Duda, em livro que publicou há dois anos, escreveu que "quem bate (no adversário) perde". Ironizando o paparicado Duda Mendonça, Suplicy alfinetou: "Não sei se é porque ele gosta de briga de galo que escolheu uma campanha que lembra de galo".

Dizendo que a aliança com Paulo Maluf foi "desnessária", e que só contribuiu para a derrota de Marta, no que eu concordo plenamente, Suplicy foi enfático ao dizer, no que concordo também, que a aliança com Maluf foi "desreipeitosa" ao Partido dos Trabalhadores e que Vlademir Garreta só queria notoriedade, já que, até sua entrevista para a "Folha", o Brasil não sabia quem ele era, nem mais gordo, nem mais magro, acrescento, "mas agora sabe".

Vi as declarações do senador na TV Senado, assim como as manifestações de apoio dadas tanto pelo PFL quanto pelo PSDB, hoje os dois grandes partidos de oposição ao governo Lula. E me lembrei de que, dentro do PT, o senador não é bem visto por muitos setores, a maioria deles sectários. Junte-se aos petistas que não gostam de Eduardo os que malham Judas em busca de culpado.

É triste ver que não o PT, mas boa parte de seus dirigentes, tratam dessa forma um homem público como Suplicy. É triste assistir a essa "caça às bruxas" de um partido que, salvo excessões dentro de suas fileiras, mostra que não sabe - mesmo - perder. Acho engraçado até. É o mesmo PT que, de tanto perseguir e malhar a séria deputada federal Luiza Erundina, acabou perdendo um de seus nomes mais importantes para o PSB. É o mesmo PT que venceu em Fortaleza, minha terra querida, sem apoiar sua candidata - mas o candidato do PC do B, Inácio Arruda. É ou não é, com todo o respeito que o Partido dos Trabalhadores merece, e tem de mim, não é de hoje, um verdadeiro (e grave) "samba do crioulo doido"?

José Rocha, 44, cearense de Fortaleza, é escritor, autor dos livros "Espelho quebrado", "Batatas fritas ao sol", "O verbo por quem sofre de verborragia", "Coração de Leão" e "A lua do meio-dia" (no prelo). Contatos com o autor: joserocha@netsite.com.br

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