Fernando Pessoa: O universo e o Eu*
Nossa Lucélia - 12.03.2012


*Este artigo insere-se nas atividades do Projeto Autor do Mês, parceria cultural entre o Curso de Letras da Faculdade da Alta Paulista (FAP) e a Biblioteca Municipal Professor Tobias Rodrigues, de Tupã

TUPÃ - Fernando Pessoa foi o escritor português de maior destaque da primeira geração modernista portuguesa, o Orfismo. No terreno da língua portuguesa, disputa com Camões o posto de maior literato de todos os tempos. Para compreender a poesia de Fernando Pessoa, deve-se levar em conta, entre outros aspectos, o fenômeno da heteronímia, que consiste em algo complexo, por se tratar de invenções de personalidades poéticas fictícias, possuidoras de um nome, biografia e ideologia diversos dos de Pessoa. É importante ressaltar que a heteronímia é distinta de pseudonímia, o nome falso a que alguns autores recorrem a fim de dar vazão a suas estratégias literárias. Além de ter produzido uma poesia heteronômica, Fernando Pessoa compôs igualmente uma ortônima, que consiste de composições oriundas do poeta em si, de existência real e empírica, que assina seus poemas com o próprio nome.

Os heterônimos de Fernando Pessoa resultaram de um processo de anseio pelo conhecimento, pois o escritor queria ter ciência, amplamente, das diversas facetas da realidade. Dessa forma, Fernando Pessoa procurou multiplicar-se por meio de outros “eus” para melhor sentir e enxergar a realidade do mundo que o cercava. Suas criações refletem diferentes realidades, sinalizando para a existência humana nas suas mais variadas latitudes. Dentre os heterônimos de Fernando Pessoa, três ganharam destaque, a saber: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Os traços de Fernando Pessoa ortônimo consistem na dor de pensar, na saudade de um tempo perdido, como, por exemplo, a infância, no tédio perante a existência, na inadaptação social, na recusa da ciência, entre outros.

Em “Mar Português”, Fernando Pessoa ortônimo trata a dor como um processo de melhoria existencial, pois, se soubermos conferir ao padecimento significados, tudo tenderá a melhorar, na medida em que o sentido a quase tudo aclara e apazigua. O indivíduo que vivencia a dor sem tirar lições desse processo vive estupidamente, de forma estéril. O poema trata ainda do Bojador, que simboliza o limite do mundo. Quem quer vencer seus limites deve enfrentar e superar seus obstáculos. Dessa ótica, passar pelo Bojador significa a vitória existencial. É por meio das dificuldades que chegamos às estrelas.

Para finalizar, Fernando Pessoa ressalta, no poema em causa, que tudo vale a pena se a alma não é pequena, ou seja, quem vislumbra tão somente o resultado imediato de alguma ação, possui a alma embotada. Com efeito, o poema tangencia, também, a questão do povo português e de seu ideal de expansão, que deve ser observado não apenas como algo físico ou geográfico, mas, acima de tudo, como matéria existencial, de alargamento das experiências interiores e mais recônditas.
Encerro este artigo com a seguinte estrofe, de autoria de Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro:

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.”

**Karla Fernandes Bonomo é graduanda do Curso de Letras da FAP. É membro do Grupo de Pesquisa sobre Retórica e Argumentação da Universidade Federal de Sergipe.


Fonte: João Adalberto Campato Jr. / Faculdade da Alta Paulista - Tupã


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