Expedição do Rio do Peixe em 1905
Nossa Lucélia - 03.07.2011



Por Marcos Vazniac - No ano de 1905, o então governador do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriçá, aprovou o projeto para exploração do rio do Peixe, na época um empreendimento ousado.

As primeiras tentativas de explorar a região foram feitas há 50 anos, por volta de 1850 pelo explorador José Teodoro de Souza. O sertão bruto do Oeste Paulista era habitado por tribos indígenas como os Chavantes, Caiuás, Guaranis e Coroados.

A Comissão Geográfica e Geológica partiu de São Paulo em 21 de maio de 1905, chegando a Campos Novos, e de lá, no dia 26 partiram rumo à cabeceira do ribeirão do Pinhal, afluente do rio do Peixe.A comitiva resolve abrir picadão a margem do córrego do Arrependimento, onde os mateiros descobriram um lindo trecho de mata com árvores gigantescas, nas proximidades do córrego, foi montado acampamento denominado Esperança.

O trecho com inúmeros brejos e o medo de ataques de índios selvagens dificultava a marcha pelo sertão bravio.

Em 28 de agosto, foi alcançada a margem esquerda do rio do Peixe. No dia 14 de outubro, oi inaugurado o acampamento Canoa Podre, pois no local foram achados vários canos apodrecidos, provavelmente eram utilizadas pelos indígenas em suas excursões pelo rio. Nas proximidades foram encontrados cerca de 30 ranchos rusticamente construídos por indígenas. Após permanecerem em estado de alerta máximo devido à presença de índios nas redondezas que podiam atacar imediatamente, os bravos desbravadores seguiram rio abaixo, e no dia 02 de novembro encontraram o religioso Frei Boaventura Maria D´Adeno, um frade capuchinho que celebrou a primeira missa, às 9 horas do dia seguinte. O chefe da Comissão Geográfica Sr. João Pedro Cardoso, escreveu que sob um céu azul todo o pessoal assistiu a solenidade religiosa, sendo portanto, que essa missa constituiria uma das mais belas páginas da história, pois foi a primeira celebrada no vale do Rio do Peixe (sic).

Várias tribos de índios foram encontradas na margem do rio do Peixe, como nos afluentes Barra Grande e rio Panela.

Como em qualquer expedição épica como a presente descrita, a saudade dos familiares é muito grande. No dia 06 todos receberam cartas de seus parentes distantes, que há meses não se dava notícias. A leitura das cartas deixou a todos emocionados, sendo logo interrompidas pelo pios dos pássaros na floresta, segundo os espiões de índios havia índios que também piavam e seguiam de perto a expedição.

Com medo de ataque de índios que podia ser iminente, à noite o acampamento parecia uma praça de guerra, pelo seu aspecto bélico, mantido ordem e disciplina. Após infrutíferas tentativas de ataque de silvícolas, os mesmos acabarem abandonando a comitiva.

Em maio de 1906, a Comissão Geográfica e Geológica, atribuiu ao engenheiro Gentil Moura - que participou da expedição do rio Feio - a chefia e atribuições para concluir os trabalhos da exploração do rio do Peixe, iniciada no ano anterior.

A nova fase da exploração com seus novos chefes teve início em 13 de junho de 1906, saindo de São Paulo, pela Estrada de Ferro Sorocabana.

A comitiva construiu cerca de 16 pequenas canoas, todas feitas de cedro, madeira nobre facilmente encontrada na redondeza. Desceram pelo rio durante alguns dias, sempre com medo de ataque de índios, mas sem nenhum incidente grave.

Passaram por três corredeiras, duas das quais foram denominadas Taquaral e Biguá, e logo após encontraram uma cachoeira de 3,50 metros de altura. O rio continuou acidentado, e logo a comitiva encontrou mais duas cachoeiras denominadas Marimbondo e Conchas. Três quilômetros abaixo, encontraram nova cachoeira denominada Quatiara, excedendo a Biguá em altura e imponência. Como o rio se dividia em dois, havia neste salto, duas quedas d´água de aproximadamente 7,50 metros de altura, separados um do outro por 2.30 metros.

O rio seguia seu fluxo abaixo, com corredeiras. Algumas denominadas Cascalho, Cágados, Capichingui e Age. Abaixo, encontraram duas pequenas ilhas denominadas Feia e Capichingui. Nesta altura o rio tem 8 metros de largura, quando se aflui ao ribeirão da Confusão, e que, a duzentos metros da foz, cai m dois saltos de 3 metros cada um.

Dia 24 foram encontrados muito materiais como arcos, flechas, colares e crânios de macacos nas margens dos rios. No dia 24, trabalhadores que iam à frente, eram tiros revidando ataque de índios. O feitor da turma e três camaradas forem feridos levemente e medicados no local, pelo médico da expedição.

Nas margens do rio podem se observar muitos pássaros da fauna local como perdizes, papagaios, araras vermelhas e amarelas, periquitos, maitacas, tucanos, pica-paus, pombos, inhambus, macucos, urus, jacus, jacutingas, mutuns, sabiás, beija-flores, curiangos, colhereiros, graças pardas e brancas, jaburus, patos-brancos, biguás, tapicurus, anhumas, entre outros.

Entre os animais destacaram a anta, capivaras, ariranhas, lontras, veados, catetos, onças-pintadas, macacos de diferentes espécies, além de anfíbios e répteis como cágados, grandes lagartos, jacarés, grande variedade de cobras, entre elas a temida sucuri.

Muitas borboletas enfeitavam a copa e as flores das árvores, muitos eram os mosquitos e moscas, com seus barulhos e voos irritantes ao redor do rosto suas picadas ardentes.

O rio do Peixe faz jus ao nome. A comitiva de desbravadores encontrou diversas variedades de peixes como dourados, piabas, pacus, piranhas, corimbatás, lambaris entre outros. Cinco minutos bastavam para pescar o suficiente para a refeição do dia.

O rio do Peixe, também era conhecido na barra do rio Paraná como rio Tigre, porém, se tratava do mesmo rio.

O rio percorre 500 quilômetros desde a sua nascente, nas proximidades do atual município de Garça, e deságua no rio Paraná com descarga de 11 metros cúbicos e 550 litros por segundo. No dia 04 de outubro, às 4 horas da tarde, a turma chegou à barra do rio Tigre, no rio Paraná, comprovando-se que se tratava do mesmo rio chamado de rio do Peixe.

O botânico Gustavo Edwall escreveu o seguinte comentário sobre os índios coroados: “ O inimigo perfidioso, sanguinário e vingativo, o Coroado selvagem, finalmente terá que aceitar a civilização, emigra-se ou sucumbir, e o sertão, o admirável sertão, abrir-se-á sem condições aos integrantes e valentes pioneiros da cultura e da modernidade.”

Tal matéria é apenas um pequeno resumo do original. As fotos da época demonstram um rio cercado de mata virgem e selvagem, onde a dificuldade de locomoção, desde a região de Bauru, seria logo superada pela abertura de núcleos habitacionais, que formaram novas cidades, trazendo o progresso para o Oeste Paulista, a última região de mata Atlântica Continental que foi destruída rapidamente pelo progresso e em nome da civilização ocidental.


Fonte: Marcos Vazniac




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