Dona Durvalina
Nossa Lucélia - 22.06.2011



A história da Dona Durvalina - Cidadãos importantes de nossos dias, muitos ainda aqui residentes, guardam dos tempos de sua juventude, em sua lembrança, e talvez em sua saudade, a imagem amiga e protetora de Durvalina Siqueira Costa, uma negra robusta, de cabelos loiros oxigenados, simpática, clique e educada, de fala e gestos suaves e conhecedora dos anseios dos homens sequiosos e solitários, aos quais sempre ajeitava, em seus domínios, alcova e prazer feminino.

No lado norte da cidade, nas adjacências do cruzamento das ruas México e Hans Clotz, surgiram, nos primeiros 10 anos de vida de Osvaldo Cruz, várias casas de vida noturna, de aparência modesta, inteiramente enfeitadas com muito adereço colorido. Durante o dia, eram casas preguiçosas e sonolentas, porém acesas e animadas durante a noite. Suas moradoras não faziam segredo da posição assumida. Os homens que as procuravam o faziam com sigilo e discrição.

Dentre essas casas, pontificava a bela mansão de Durvalina Siqueira, conhecida como “Pensão Luminosa”, mandada construir por um admirador seu, um europeu grandalhão. Era uma casa com sala grande, bem iluminada, cheia de portas e quartos, embevecida de músicas românticas, especialmente guarânias e boleros.

Dona Durvalina Siqueira tratava diretamente dos assuntos legais de sua “Pensão Luminosa” nos escritórios, na Delegacia de Polícia e na Prefeitura Municipal, pagando impostos e requerendo alvarás para os sucessivos bailes que promovia. Sempre bem arrumada e distinta, era recebida com respeito. Foi um histórico bancário local quem a ensinou a desenhar seu nome, no balcão do banco, para poder movimentar sua conta corrente. Ela nunca emitia um cheque sem fundos.

Pela inexistência de automóveis de aluguel na época, proliferavam na cidade as charretes como veículo de condução pessoal. Nelas, com freqüência, em postura imponente, dona Durvalina cobria os diferentes percursos urbanos, balançando o seu robusto corpo ao compasso do trotear do cavalo. Na boléia, o charreteiro mostrava-se orgulhoso por transportar a importante passageira. Nos pequenos percursos, a pé pela cidade, invariavelmente Dona Durvalina portava uma sombrinha branca, alva, com um longo cabo de madrepérola. Nas charretes também eram freqüentes os desfiles das inquilinas da “Pensão Luminosa”, embonecadas, pelas arenosas ruas centrais da cidade, num convite ao vivo, porém mudo, para a convivência noturna.

Durvalina Siqueira, hospitaleira e prestativa, sóbria e solene, tinha sempre, em seu séqüito, o lenitivo para a solidão dos homens que fundiam os alicerces da cidade. Eles, para atenuar a exaustão do dia de trabalho, buscavam êxtase na companhia das inquilinas da “Pensão Luminosa”, sob o amparo e o conselho de Dona Durvalina. Nessa mansão de moradores flutuantes, a noite não dormia. Dona Durvalinha Siqueira, criou, com sacrifício, filhos adotivos. Sempre se condoeu das crianças desvalidas e ajudou-as.

Hoje, no fim da vida e enferma. Dona Durvalina vive de caridade num mísero quarto em Lucélia, tão diferente de seu rico e pomposo quarto de outrora, como tristemente definiu respeitável cidadão local, que outro dia foi visitá-la. Ignorar ou esconder a marcante presença de Durvalina Siqueira Costa na primeira década de Osvaldo Cruz será omitir a verdade.


Fonte: (11-10-1984). Alvarenga, José: Janelas do Tempo: Crônicas da cidade de Osvaldo Cruz. Páginas 127 e 128. / Colaboração: Marcos Vazniac




Voltar para Home de Notícias


Copyright 2000 / 2010 - All rights reserved.
Contact: Amaury Teixeira Powered by www.nossalucelia.com.br
Lucélia - A Capital da Amizade
O primeiro município da Nova Alta Paulista