Psicóloga luceliense fala sobre o projeto de lei que proíbe as 'palmadas'
Nossa Lucélia - 07.08.2010



"A discussão provocada por essa medida é interessante para que a sociedade avalie a violência cometida contra a criança dentro de muitos lares", diz a psicóloga Mércia Troncon


LUCÉLIA - Pesquisa revela que 54% dos brasileiros são contra o projeto de lei que proíbe pais e responsáveis de darem palmadas em crianças. Outros 36% declararam apoio à proposta, encaminhada ao Congresso pelo presidente Lula.

O levantamento foi feito pelo Datafolha, entre 20 e 22 de junho. Foram ouvidas 10.905 pessoas em todo o país. A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos. A equipe de redação do jornal O Independente, procurou pela psicóloga Mércia Fuzetti de Almeida Troncon, que trabalha no Lar Batista de Crianças de Inúbia Paulista e na Associação de Proteção à Criança, Adolescente e Família de Lucélia para explicar alguns pontos importantes sobre a lei.

(entrevista publicada parcialmente no jornal O Independente, abaixo segue entrevista na íntegra)

O Independente - Qual a sua opinião sobre esta lei?
Mércia - A proposta desse projeto de lei inclui "castigo corporal" e "tratamento cruel e degradante" como violações dos direitos na infância e adolescência. O governo diz que com essa lei quer acabar com a banalização da violência dentro de casa. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) fala em "maus tratos", mas não especifica os tipos de castigo que não podem ser usados por pais, mães e responsáveis. A proposta traz as mesmas penas já previstas no ECA para pais, mães e cuidadores de crianças e adolescentes. No caso das palmadas, as medidas vão desde encaminhamento a programas de proteção à família e tratamento psicológico, a advertência e até perda da guarda. As palmadas já são proibidas por lei em diversos países, sendo que a Suécia, em 1979, foi a pioneira. Depois vieram países como Áustria, Alemanha, Dinamarca e outros.
A discussão provocada por essa medida é interessante para que a sociedade avalie a violência cometida contra a criança dentro de muitos lares de forma “educativa”.
Antigamente, a palmada era usada como instrumento de educação de forma habitual. Os pais têm livre arbítrio para educarem seus filhos, mas devem respeitá-los como a qualquer outro ser humano. Acho que existem métodos mais eficazes do que a palmada para a correção de condutas indesejáveis.

OI - Você acredita que uma “palmada” possa ajudar ou não na educação?
Mércia - Algumas pesquisas comprovam que métodos como as palmadas têm eficácia na redução de condutas inadequadas sim, mas seus efeitos são apenas temporários. Com as palmadas pode-se até diminuir a frequência de comportamentos indesejáveis, mas não se ensina porque a criança deve deixar de fazê-los. Muitas vezes, por não compreender os motivos da punição, a criança, ao invés de abandonar a atitude, cria formas mais elaboradas de fazê-la sem que os pais fiquem sabendo. Uma “simples” palmada não deixa de ser um abuso. Há uma relação de continuidade entre um “simples” tapa e uma agressão, ou seja, eles não são de naturezas diferentes, apenas variam em intensidade. Aqueles que são favoráveis à punição alegam que uma palmada é muito diferente de um espancamento. Mas, não é possível delimitar onde termina uma e começa o outro. Quem dá um tapa, na próxima vez será capaz de dar um tapa um pouco mais forte se o primeiro não resolveu. E, se a criança para provocar, defende-se a sua maneira dizendo que não doeu, qual será o limite entre a palmada e o espancamento?

OI - As 'palmadinhas' podem causar algum dano/trauma na criança? Explique.
Mércia - A mentira é uma das conseqüências das palmadas, pois a criança para esconder o erro, começa a mentir para se livrar das palmadas. As crianças aprendem observando o comportamento e palavras daqueles com quem convivem diariamente e são importantes para elas. Palmadas leves, que não deixam marcas no corpo nem causam muita dor, possuem efeitos temporários. Assim, é comum que as crianças voltem a ter a mesma atitude após alguns dias, mesmo depois das palmadas. Por outro lado, as surras violentas podem ser traumáticas e causar muitos danos para a criança, não só fisicamente como emocionalmente. Dependendo da idade, a criança não consegue relacionar o motivo da violência ao que fez para provocar aquilo. Pode sentir raiva do adulto e aprender que a força é um meio aceitável de conseguir o que quer. Também podem descontar o tapa que levou dos pais nos colegas. A palmada pode diminuir a auto-estima da criança, aflorar sua agressividade, seu medo, insegurança e sensação de impotência, dor, humilhação, tristeza, angústia, ódio e vergonha.

OI - Qual é a melhor maneira de repreender uma criança quando faz algo errado sem causar quaisquer transtornos a ela?
Mércia - Deve-se procurar dar um tempo para a criança. Colocá-la “de castigo” em algum lugar onde permaneça o tempo suficiente para se acalmar ou perceber que se portou mal. Geralmente o número de minutos dessa pausa é equivalente a idade da criança.
Quando o adulto perceber que está a ponto de “explodir”, antes de levantar a mão, respire fundo, diga à criança que vai se retirar durante alguns minutos e que quando chegar vão falar sobre o que aconteceu. Depois não deixe de fazê-lo.
Falar é sempre uma alternativa melhor que bater. Fale calmamente com a criança, explicando-lhe o que fez de errado e qual seria a melhor forma de proceder, mas usando uma linguagem apropriada à sua idade.
Dê algumas alternativas de escolha antes de partir para as palmadas.
A perda de privilégios também é uma boa opção. Mostra às crianças que existem consequências reais para os seus atos desafiadores.
Elogie em vez de críticar, pois as crianças aprendem melhor o que é portarem-se bem quando destacamos o bom comportamento com palavras positivas e elogios. Isso irá motivá-las a manter o bom comportamento.
É muito importante não recuar ou voltar atrás – as crianças precisam compreender que existem consequências para todos os seus atos. Procure também formular os seus pedidos de forma positiva, ou seja, em vez de dizer “não pode ver o seu DVD enquanto não arrumar os brinquedos todos”, diga: “claro que pode ver o seu DVD, mas primeiro tem que arrumar os brinquedos”.

OI - A criança/adolescente pode se tornar uma pessoa violenta por isso?
Mércia - Estudos já comprovaram que crianças que convivem com atos de agressão física, sofrendo agressões ou presenciando-as constantemente, tendem a ser mais agressivas. Outras, bloqueiam-se e acabam recebendo qualquer tipo de agressão sem reagir contra ela.

OI - Você acredita que os adultos ainda se sentem impunes em relação à agressão doméstica quando batem nas crianças para "educar"? Esta lei pode mudar isto?
Mércia - Acredito que aqueles que costumam fazer uso desse método de disciplina estão se sentindo lesados dentro de sua autoridade como pais. Reforço que essa lei é boa no sentido de chamar a atenção da sociedade em geral, para com a violência infantil. É importante, corrigir aquilo que se considera inadequado, mas a valorização dos bons comportamentos pode trazer bons resultados. Quando ajudamos a criança a desenvolver seu autocontrole, estabelecendo limites, ensinando os comportamentos adequados e corrigindo os inadequados, ajudando-a a desenvolver a sua auto-estima e sua autonomia, preparando-a para enfrentar o mundo sem que precise mentir para não ser punida, estamos disciplinando-a.


Fonte: CAMILA HELOÍSE / http://camilajornalismo.blogspot.com/




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