Juliano Landim, ex-pivô, lembra trajetória no basquete construída sem a visão de um olho
Nossa Lucélia - 28.11.2024
Com início em Lucélia, Juliano Landim atuou ao lado de grandes nomes
LUCÉLIA - Quando tudo parecia perdido, a superação possibilitou a construção de uma carreira consolidada no basquete brasileiro. A jornada de Juliano Landim até as principais disputas do país, realizada mesmo sem a visão de um olho, teve início durante a época de uma escola memorável da modalidade em Lucélia.
Recentemente, a cidade do Oeste Paulista realizou a quarta edição de um encontro que reuniu integrantes daquele período histórico. A presença do ex-pivô ao lado dos companheiros "das antigas" virou assistência perfeita para relembrar detalhes da trajetória, marcada por um apelido.
“Sempre brincavam comigo que, no Carnaval, eu não precisava nem me vestir de pirata, era só colocar um papagaio aqui no ombro. E ficou o "Pirata do Basquete".
“Não, jamais [sobre se ofender]. Pelo contrário, é um apelido carinhoso, sem problema nenhum, até gostava. Ficou marcado, minha marca pessoal na modalidade. O pessoal nunca fez por maldade”, disse o ex-jogador.
Para entender a origem do apelido, é bom voltar um pouco mais no tempo. O ex-atleta profissional começou a jogar no colégio, e não demorou para chegar o convite de integrar o time da cidade nas disputas regionais. Na época, Lucélia era treinada pelo professor Monge.
O ex-pivô ressaltou também que a equipe local não fazia feio, em um período que Presidente Prudente e Osvaldo Cruz eram escolas fortes e competitivas em nível além do regional. Dentre as últimas revelações desse trabalho em Lucélia, está a armadora Maila Ciciardi, bicampeã da Liga de Basquete Feminino (LBF) pelo Araraquara, seu atual clube.
Aos 14 anos, Juliano Landim deixou o Oeste Paulista pela primeira vez e passou um tempo no Sírio, da capital. Retornou para casa e, aos 16, foi tentar a sorte em Franca, na época já dona do rótulo de uma das potências do país na modalidade. Hélio Rubens era o técnico.
Foi com a camisa de Franca que um episódio delicado quase fez tudo mudar para pior, em definitivo, no aspecto profissional. Os garotos do time foram visitar o Corinthians. Em uma disputa de bola, o atleta do Oeste Paulista sofreu uma grave lesão no olho direito.
Assimilada a dor e vencido o susto, restou ao luceliense encarar o desafio de atuar com parte da visão comprometida. A subida para o time de cima, aos 18 anos (ele nasceu em 1971), fez ele trabalhar ao lado de grandes nomes da modalidade.
“Aí que minha carreira, na verdade, começou. Porque eu consegui jogar entre 20, 25 anos em alto nível. Graças a Deus”.
“Fui campeão paulista, vice-campeão brasileiro, com toda essa turma, Hélio Rubens e um baita time. Franca ainda hoje é uma grande escola. Para mim, começar lá foi um grande aprendizado. Tínhamos o Fernando Minucci, que é de Prudente, o Chuí, Fausto, Guerrinha, Raulzinho, pai do Raul da NBA, o finado Paulo Meindl, pai do Léo Meindl, da seleção. Convivi com muita gente boa, dava gosto de ser mais novo e ter todos eles de espelho, tanto dentro quanto fora de quadra”, relembrou.
As conquistas na região de Ribeirão Preto foram sucedidas por períodos na Itália, Argentina e Região Sul. Em Santa Cruz do Sul (RS), atuou com o técnico Ary Vidal e jogou ao lado de nomes como Rolando e Marcel. Depois, ficou sem clube e voltou à cidade natal para ajudar o pai. Na época, o patriarca da família tinha uma carvoaria, e a colaboração seguiu até acertar com outro clube.
A retomada teve Araras como casa, e Juliano Landim reforçou a seguir o Hebraica e o Araraquara. Destacou-se no Campeonato Paulista, em uma temporada, a de 1998, em que terminou como o único pivô dentre os 10 principais pontuadores.
ACIDENTES E BOM HUMOR - Com bom humor, Juliano se recordou também de alguns acidentes à beira da quadra. Neles, terminou derrubando treinadores.
“Pela falta de visão, eu saí pelo lado direito muito rápido e acabei atropelando o Hélio Rubens. Ele ficou quase uma semana mancando (risos). E fiz a mesma coisa com o Ary Vidal em Santa Cruz do Sul. Peguei o rebote e fui sair pelo lado que não enxergo. Quando vi, o Ary já estava sentado no chão”.
Sobre a adaptação necessária, o ex-pivô detalhou que a visão mais aproximada ficou bastante comprometida. Porém, as necessidades o fizeram desenvolver outros movimentos, por exemplo, a rotação do tronco e da cervical.
“Não é fácil ter uma visão apenas e jogar um esporte coletivo, que exige visão periférica. Como dizem, eu tinha que olhar "o peixe e o gato". Se olhasse só um, perderia o outro. E tinha que ter muito a visão em profundidade. Quando me dei conta que estava totalmente cego, eu já havia me adaptado”.
FIM DA TRAJETÓRIA - Já na reta final da carreira, o ex-atleta se transferiu para Ribeirão Preto. Em Uberlândia (MG), reencontrou alguns companheiros do período em Franca e levantou a taça nacional ao lado de Hélio Rubens e de Helinho, filho do treinador.
Jogou em Goiânia (GO) até encerrar a carreira entre 2005 e 2006, depois de fazer uma cirurgia no punho. Ou seja, foram cerca de 20 anos atuando em alto nível no basquete brasileiro.
“Posso dizer que conheci grandes treinadores, jogadores e amigos em grandes clubes, praticamente dos 16 aos 36 anos, me apresentando em um nível alto, apesar de tudo”.
Ao parar, voltou para a cidade natal mais uma vez, agora em definitivo. As aparições nas quadras têm se limitado aos encontros como o realizado recentemente. A vida profissional segue ao lado do irmão, em uma empresa do ramo de confecção, onde atua no posto de vendedor.
“É um esporte que deu muitas alegrias para Lucélia. Muitos atletas saíram daqui, por isso os eventos são sempre um sucesso. É gostoso relembrar”.
ACABANDO COM A SAUDADE - A primeira edição do encontro promovido pelos amigos da "antiga" do basquete de Lucélia foi realizada em 2018. Dentre os objetivos do evento inaugural, esteve a homenagem ao professor Monge, ícone da modalidade no município.
No primeiro e segundo ano (2018 e 2022), o encontro teve como palco o Ginásio de Esportes, onde tudo começou para muitos, incluindo o ex-pivô. Os outros encontros, em 2023 e 2024, foram na escola Carlos Bueno, na Vila Rancharia.
O último deles aproveitou o feriado de 15 de novembro e se estendeu até o dia seguinte. Na data de abertura, os amigos costumam colocar a resenha em dia e dividir os times. O amistoso é realizado no outro dia, e a resenha segue após a partida.
Na edição deste ano, jogadores e público participaram com a doação de alimentos a entidades assistenciais. A edição de 2025 já tem data definida: 21 e 22 de novembro.

Fonte: Paulo Taroco _ Do ge P. Prudente
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