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A luceliense Elaine Matsubara fez por acaso uma descoberta inédita no mundo
Nossa Lucélia - 23.01.2010
Invento seria inédito no mundo
USP descobre filtro que anula nicotina e alcatrão do cigarro. Expectativa do grupo que fez a descoberta é de que alguma empresa se interesse e patrocine a pesquisa. Só assim será possível continuar os estudos e tornar a descoberta acessível para o consumidor.RIBEIRÃO PRETO - Por Georgia Rodrigues - Foi dentro de uma sala apertada, com menos de 60m², que a estudante de doutorado Elaine Matsubara, fez por acaso uma descoberta inédita no mundo.
Na forma de um pequeno filtro, igual ao de um cigarro comum, o nanotubo de carbono testado por ela apresentou uma composição capaz de filtrar todo o alcatrão e nicotina presentes no cigarro. Até então, nenhum laboratório do mundo havia apresentado esse resultado.
Pesquisadora do laboratório de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP-Ribeirão Preto, Elaine estuda nanotubos — uma espécie de grafite, composto por átomos de carbono, 100 mil vezes menor do que um fio de cabelo. O teste realizado por ela foi simples.
O nanotubo produzido em forma de pó foi preso em um filtro que tem o mesmo diâmetro de um cigarro comum. Uma máquina simulou o fumante. Quando a queima do cigarro começou, Elaine ficou surpresa. Ela observou que o filtro absorvia as toxinas do cigarro e reteve todo o alcatrão e nicotina contidos ali. Na prática a descoberta vai permitir ao fumante consumir o cigarro, sem ingerir as toxinas presentes nele.
“Quando o teste foi realizado e deu certo tive de segurar a ansiedade até ter a certeza de que ninguém havia descoberto isso antes. Procuramos na literatura científica e não encontramos nada parecido”, contou ao DebateOnline, a pesquisadora de nanotecnologia, natural de Lucélia (SP), que mudou-se para Ribeirão Preto quando resolveu cursar a Faculdade de Química na USP, em 2003.
A idéia de testar em cigarros os nanotubos de carbono pesquisados por Elaine aconteceu quando o professor José Maurício Rosolen, do Departamento de Química da USP, procurou a estudante com outro estudo sobre a presença de tolueno em cigarro.
“Há alguns anos começamos a trabalhar com as nanoestruturas de carbono. Mas foi no final do ano passado que detectamos um tipo de nanoestrutura que dá este resultado. Investimos em estruturas menos exploradas. São detalhes mínimos que fizeram a diferença. E o diferencial está na estrutura do nanotubo que testamos”, conta Rosolen, sem revelar detalhes sobre a composição da descoberta, que já está sendo patenteada em nome da USP e da Fapesp (fundação que patrocina a pesquisa), além do grupo que fez a descoberta — Elaine Matsubara, José Maurício Rosolen e Luiz Beraldo de Moraes.
Ainda não há previsão para o teste ser realizado em humanos. Os riscos do novo filtro identificados até o momento são pequenos se comparados com as toxinas presentes no cigarro consumido pelos fumantes. Por ser um elemento muito leve, o nanotubo é tóxico e pode se perder facilmente. Por isso, durante a experiência ele foi fixado em um elemento filtrante, que serviu de suporte.
Comercial
A expectativa do grupo que fez a descoberta é de que alguma empresa se interesse e patrocine a pesquisa. Só assim será possível continuar os estudos e tornar a descoberta acessível para o consumidor. Porém, muitos entraves atrapalham o andamento do trabalho do grupo. Entre eles, está a estrutura física do laboratório. O espaço é apertado e não comporta grandes equipamentos.
“Poderíamos produzir muito mais, fazer filtros maiores, para testar aplicação para a área industrial, mas não tem como neste espaço. Tenho equipamento há dois anos dentro da caixa que perdeu a garantia por falta de espaço para instalar”, revela Rosolen.
Outra boa notícia da descoberta é o preço do material utilizado. A fonte de carbono necessária para produção não encarece o produto final. “Nosso desafio sempre foi encontrar aplicações tecnológicas para nossas pesquisas. E isso envolve aplicações viáveis com resultados economicamente viáveis também”, explica.
Esperança
A descoberta traz esperança para diminuir as estatísticas que apontam cinco milhões de mortes anualmente provocadas pelo consumo do tabaco no planeta. Só no Brasil, são gastos mais de R$ 330 milhões pelo Sistema Único de Saúde para tratar das doenças causadas pelo cigarro.
Mas a invenção ainda pode encontrar resistência. Para o endocrinologista e psicanalista, Ricardo Maximiliano Pelosi, formado pela Santa Casa de São Paulo, a simples filtragem das toxinas não resolve o problema para quem é dependente química e psiquicamente do cigarro. “Em minha experiência, tanto o fumo, álcool, drogas e comidas (nos obesos compulsivos) são 'venenos' diversos que tentam atenuar ansiedades patológicas. Filtrar a nicotina, o alcatrão e outros “quetais” peca por negligenciar o fundante comprometimento emocional”, defende.
E aponta uma possível solução para o impasse. “Se tratarmos os sintomas sem atinar com suas origens, estamos plantando recidivas. Sei que é utópico, mas todas as dependências demandam tratamentos psicoterápicos. As raízes das dependências encontram-se no mundo emocional de cada um deles”, completa.
Fonte: Debate-Online / Colaboração de Marcos Vazniac
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