Esquema de doping no atletismo pode colocar técnico na prisão
Nossa Lucélia - 07.08.2009
Jaime Netto disse quarta-feira que injetou a substância proibida sem o conhecimento de seus pupilos
PRESIDENTE PRUDENTE - Não é somente na esfera esportiva que o técnico Jayme Netto, pivô do maior caso de doping do atletismo brasileiro, pode ser julgado. Após ter confessado que ministrou doses de EPO (eritropoeitina) a seus atletas, o treinador pode vir a ser julgado em outra esfera mais ampla, podendo até mesmo ser preso. Nos casos mais graves, o uso da EPO, que aumenta a produção de glóbulos vermelhos no sangue, pode vir a causar até a morte do atleta. Se o atleta suar muito e se desidratar, o sangue tende a ficar pastoso, o que compromete sua circulação sanguínea.
Como a aplicação de EPO expõe a vida ou a saúde de outrem a perigo direto ou iminente, o técnico teria violado o artigo 132 do Código Penal. Se for condenado por isso, Netto pode ser punido com detenção de três meses a um ano. O técnico, que não possui habilitação para prescrever medicamento controlado (a EPO é indicada para pessoas com deficiências renais), ainda pode ter de responder à lei de contravenções penais. Segundo o artigo 47, exercer profissão sem preencher as condições a que por lei está subordinado o seu exercício pode render prisão de até três meses ou multa.
Caso seja comprovada a participação do fisiologista Pedro Balikian e do assistente-técnico Inaldo Sena, ambos também podem vir a ser responsabilizados criminalmente. Por enquanto, no entanto, o escândalo de doping ficará restrito à esfera desportiva. De acordo com a legislação desta área, o caso só vai ser encaminhado à autoridade competente e ao Ministério Público após ser julgado no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
Atualmente, além de serem alvo de inquérito da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), Netto Jr. e Sena ainda correm o risco de perder a habilitação profissional. O conselho de educação física de São Paulo confirmou o inquérito, que será realizado após o anúncio do veredicto da CBAt. "Os dois [Jayme e Inaldo] serão enquadrados pelo código de ética e logicamente serão punidos", disse Flavio Delmanto, presidente do conselho.
Netto Jr. e Balikian ainda são alvo de investigação na Unesp. O técnico é professor do Departamento de Fisioterapia da universidade. Já o fisiologista, que ainda não se pronunciou publicamente, coordena o laboratório de Fisiologia do Exercício. Mesmo após ter confessado a participação direta no esquema que resultou em cinco casos de doping, Netto não foi afastado pela universidade pública.
De acordo com a assessoria de imprensa da Unesp, será aberta uma sindicância na próxima semana, que deve ser composta por quatro ou cinco professores com título superior aos dos investigados. Em até um mês, a decisão deve sair, com a possibilidade de ambos perderem o direito de dar aulas na universidade. Ontem, os atletas Jorge Célio da Rocha Sena, Bruno Lins Tenório de Barros e Lucimara Silvestre da Silva abriram mão da análise da contraprova dos exames antidoping e foram suspensos pela confederação por dois anos, em conformidade com o regulamento da Iaaf, entidade que gerencia o atletismo mundial. Candidatura
O COB (Comitê Olímpico Brasileiro) parece pouco preocupado com o maior caso de doping da história do atletismo brasileiro. Para o presidente da entidade, Carlos Arthur Nuzman, o episódio envolvendo cinco atletas não coloca em risco a candidatura do Rio a sede da Olimpíada de 2016. "Lógico que não [atrapalha a candidatura], não tem nada a ver. Se fosse assim, e os Estados Unidos, que têm tantos casos de doping? Da mesma maneira que a Espanha teve [casos] agora, e o Japão. Quem falou, falou inadvertidamente, sem pensar e conhecer o assunto", disse Nuzman ontem, no Rio.
(Fonte: do GN Online - P. Prudente - (Com José Eduardo Martins e Mariana Bastos/ Folha de S.Paulo))
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