Deus Dólar: 50 anos depois
25 de janeiro de 2012
Marcos Vazniac - "E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas; E disse-lhes: "Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões." Mateus 21:12-13
No início da década de 1960, o jovem luceliense Jorge Cavlak, foi solicitado a escrever um artigo no recém jornal da cidade, denominado O Divulgador. O polêmico articulista, com suas ideias marxistas , subversivas e revolucionárias, escreveu um artigo denominado "Deus Dólar".
No artigo, Jorge tece críticas ao sistema capitalista, onde o ser humano é mero número em uma mesa de um empresário. O homem vai aos templos rezar por um Deus, mas quando o homem capitalista entra em uma bolsa de valores, se ajoelha com se estivesse diante de algo sagrado.
Para o autor, crítico do sistema capitalista, o dinheiro ou seja, o Dólar americano era um Deus, muito maior e muito mais importante na vida dos brasileiros. O Deus Dólar tinha lugar primeiro, na vida profissional, sentimental das pessoas do mundo.
Como tal artigo foi escrito no auge da Guerra Fria, onde Estados Unidos e a União Soviética estavam em pé de guerra, e o perigo de uma Terceira Guerra Mundial, e a ameaça do apocalipse nuclear, era assunto de pauta de todos os jornais do mundo, tal fato virou polêmica na cidade.
Neste cenário de terror e medo, Jorge Cavlak, escreveu Deus Dólar, e pagou caro por isso. A primeira pressão veio da Igreja Católica local. O sacerdote salesiano Pe. Francisco Marh, austríaco e severo em suas homilias, o interpelou nas ruas da cidade, questionando-o sobre a real intenção de escrever um artigo onde, segundo a visão do articulista, o maior Deus do mundo, não era Javé, mas sim o Deus Dólar.
Não foi somente o “Padre Banco”, como era chamado o padre Francisco Marh que excomungou Jorge Cavlak. Parte da sociedade luceliense o chamou de subversivo e comunista e ele teve que pagar um preço caro por ser ousado naquela época. Alguns o interpelaram para que ele se mudasse para a Rússia, e até a radical TFP (Tradição Família-Propriedade), facção ultra-radical da Igreja Católica, que percorria as cidades do Brasil, criticando os comunistas, chegou em Lucélia, e com suas bandeiras e estandartes medievais fez discurso inflamado em frente ao portão de sua residência.
Bem, hoje os tempos mudaram. A Ditadura Militar acabou, e o país vive uma harmoniosa democracia. Estamos num país onde a liberdade de imprensa e os direitos civis são respeitados. O Muro de Berlim ruiu, e com ele o fim da utopia de uma sociedade igualitária no mundo. Che Guevara tombou nas selvas bolivianas, como o último herói do mundo. Hoje, o que vale é o mercado globalizado, onde as cifras são transferidas on-line de país para país, onde as bolsas de valores fazem pregões virtuais e bilhões de deuses dólares, são aplicados no mercado financeiro global.
As pessoas, como há 50 anos continuam indo às igrejas, rezam, mas não continuam tratando o Deus Dólar, ou Deus Euro, como o maior de todos. Hoje, como há 50 anos, o ser humano é julgado pelo seu CPF, pelas cifras de sua conta bancária e não pelo seu caráter. O que vale é o carro da moda, as roupas de grife, os BBBs da vida, o mundo do glamour e da riqueza.
Caro Jorge, nada mudou em 50 anos. O que mudou foi a política e a História. O ser humano continua como antes, sedento por riqueza, poder e dinheiro. No futuro nada vai mudar. Os sistemas que vieram para dar paz e tranquilidade ao mundo, foram os que mais mataram. Em nome de Deus, do Deus Dólar, do petróleo e da igualdade de classes, bilhões de seres humanos tombaram nos campos de batalha.
Em 2012, os profetas do apocalipse esperam o fim dos tempos. O tempo que vivemos é sem dúvidas um tempo de amarguras e insegurança. Uma crise financeira global ameaça a economia do mundo. No Oriente Médio, rumores de guerra em nome do petróleo e da democracia cristã. Enquanto o tempo das incertezas e amarguras não chega, o Deus Dólar continuará onipotente, triunfante, controlando como Matrix, a vida dos pobres mortais, que morrem por ele.Voltar para a coluna Marcos Vazniac
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