Satã: o personagem mais injustiçado da literatura
05 de outubro de 2011



Marcos Vazniac - Muitas pessoas atribuem ao diabo, mesmo sem saber quem é ele ou se ele existiu de fato, as mazelas do mundo. Quando ocorre um furacão no Caribe, um terremoto no Japão ou nos Estados Unidos, é tudo ação do maligno. Quando há um homicídio ou a fome do planeta acontecem, a culpa sempre cai sobre o tinhoso, no chifrudo, no belzebu.

É verdade que a História está virando literatura para alguns. Seria ruim misturar Umberto Eco com Le Goff. Seria péssimo misturar Dan Braw com Sérgio Buarque de Holanda. Só para citar exemplos.
Mas a literatura pode ser considerada importante. Ela pode ser em alguns pontos igual a História ou mesmo pode ser utilizada para explicar o que Santo Agostinho e Tomas de Aquino, não enxergaram. Na época deles a literatura era fraca.

Lúcifer, Satã, Azazel, Diabo, Íblis, podem ser o eixo demoníaco do mesmo personagem literário. Seja lá qual o nome que você atribui ao mal, ele está presente, enraizado na cultura ocidental. É ao lado da luz a maior invenção da literatura universal. Shakesperre que me desculpe, Dom Quixote de la Mancha que me perdoe, mas Satã pode ser comparado ao maior e bem acabado personagem teológico da literatura judaico-cristã.

O que é o mal? Durante a Guerra Fria, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, afirmou que a União Soviética era o império do mal. Em 1979, durante a Revolução Islâmica no Irã, o xiita Aiatola Kolmeini, afirmou que os Estados Unidos seria o grande satã. Na história, o que é mau sempre esteve associado ao demônio, ao diabo.

Origem: Os hebreus foram escravizados e no cativeiro da Babilônia, tiveram contato com uma rica mitologia.
(..) Os caldeus desenvolveram uma riquíssima demonologia - legiões de entidades semidivinas divididas em cinco classes, cada uma com sete demônios e cada classe com seus atributos distintos, apesar de não constituírem necessariamente espíritos malignos. Oriundas desse fundo comum mesopotâmico são as lendas do demônio do deserto - Azazel (azis = “força” e EL “Deus”, ao qual se ofereciam sacrifícios ao mesmo tempo que a Deus (Levítico 16:8-10) e as de Lilith - a primeira e insubmissa mulher de Adão e, posteriormente, demônio da luxuria. Também a figura do dragão, presente no antigo testamento sob diferentes nomes de Rahab, Leviathan e Tehon Rabbaah são todos provenientes do mito babilônico da criação (...). 1

O dualismo zoroatrismo, a crença de que, além de um Deus benevolente, Ahura Mazda, existia também um espírito totalmente mal, sem criador, Angra Mainnyu ou Ahriman, nasceu durante o Exílio Babilônico (..) 2.
Antigo Testamento: A origem maligna de Satã tem origem no Antigo Testamento? No AT, Satã é apresentado como um acusador (promotor) celestial. Vejam:
(..) O Senhor mostrou-me o sumo sacerdote Jesus, de pé diante do anjo do Senhor, Diabo estava a sua direita como acusador (...).3

No presente texto do livro de Zacarias, Satã é apresentado como um acusador celestial, um promotor público que está na corte celestial fazendo o papel de acusador. O mesmo se passa no livro poético de Jô.
(...) Um dia os filhos de Deus (Bene há-Elohin) se apresentaram diante de Javé, e o Satã (há=satan), estava também entre eles. Javé disse a satã: “De onde vocês vem?” O satã respondeu a Javé: “De rodear e passear pela Terra: Javé disse-lhe: “Observou o meu servo Jô? (...) 4.

Onde ocorreu tal encontro? No céu? Na terra? No seol? O autor do livro de Jô, não nos dá muitos detalhes. Mas a parte teológica mais importante é que Satã é apresentado como um policial, cuja missão é patrulhar o mundo, uma espécie de CIA e KGB na época da Guerra Fria.

(..) Um dos Filhos de Deus que servia como satã veio diante de Javé ou “um dos satãs entre os Filhos de Deus reportou-se a Javé (..) 5.
O livro de Jô é poético e como livro literário não deve ser interpretado ao pé da letra como fazem os evangélicos pentecostais e os carismáticos da Igreja Católica. Sobre o livro de Jô, os críticos apontam os seguintes temas:
Jô era um homem fiel a Deus, honesto e reto.

Deus dá autorização para Satã tentar Jô. Como num jogo de xadrez, Deus e Satã jogam xadrez, tendo a fé do pobre homem como troféu. Seria que o cineasta Ingrid Bergman, ao fazer o roteiro do filme O Sétimo Selo, se inspirou no tema?
Jô se mantêm fiel a Deus e não amaldiçoa o supremo criador, vencendo o diabo. Será?
Deus dá a Jô tudo o que ele perdeu? Será?

O livro de Jô foi escrito em prosa e verso. Na literatura, a prosa é mais fácil para os leigos entenderem. Entender Vitor Hugo é mais fácil que entender Dante Alighieri, portanto, tudo o que sabemos sobre Jô vem da prosa, já na parte de verso vemos que Jô ficou na dúvida vejam:
(..) Um morre na força da plenitude, estando todo quieto e sossegado. Os seus baldes estão cheios de leite e os seus ossos regados de tutano. E o outro morre, ao contrário, na amargura de seu coração, não havendo provado do bem. Ambos jazem no pó, e os bichos os recobrem. (...) 6.

Jô questiona a própria bondade divina. E o que acontece com seus animais que morram? O que aconteceu com seus filhos mortos pela aposta de Javé e Satã? O que os inocentes tinham com a aposta sobre a fé de Jô? São dúvidas que ficaram no ar, sem resposta. Mesmo René Descartes não foi brilhante e totalmente convincente em sua explanação sobre a fé.

A visão que temos de Satã como inimigo, anjo do mal, responsável pelo pecado de Adão e Eva, está em Isaias 14, onde é apresentado como um relâmpago caído, mas a visão do profeta é do rei Nabucodonosor, pois o referido livro foi escrito na época do Exílio Babilônico. Tal fato não se refere a satã ou a lúcifer.

Satã está presente em muitos trechos do Antigo Testamento. Se fossemos comentar todos, escreveríamos um livro. Podemos citar apenas os trechos:
“ Quando Davi está a serviço dos filisteus, estes temem que ele retorne aos israelitas e se torne um satã para eles (1Sm 29,4)”
“Quando Salomão se torna rei, ele se regogiza de fato de não haver satã contra ele (1Rs 5,4)”.

Novo Testamento: No Novo Testamento a figura de Satã forma novo contorno. Aparece a figura de Jesus o Cristo (ungido em grego) o Messias (ungido em hebraico), e sua figura zoroastra é mencionada nos Evangelhos sinóticos, nas cartas paulinas e no Apocalipse de João o Divino.

Em LC 22,31 é lembrado que Satã recebeu autorização para submeter Pedro e os outros apóstolos à tentação. Em Marcos 1, 23-26, um demônio reconhece Jesus de Nazaré. Jesus diz: “Como um satã pode expulsar um satã? Em Lucas 4, 6 o diabo diz a Jesus: “Todo este poder e glória desses reinos me foram dados”.

No Novo Testamento a figura de Satã, Lúcifer ou diabo é bem próxima ele recebe outros nomes como satanás (aramaico) e diabo (grego).
Estrela da manhã: No livro do Apocalipse, Jesus se intitula portador da luz:
(...) Fui eu, Jesus, quem enviou o meu Anjo com este testemunho para as igrejas. Eu sou a Raiz e o descendente de Davi, a Radiosa Estrela da Manhã” Ap 22,16.

Se procuramos um dicionário de grego e latim e procuramos pela palavra Lúcifer iremos encontrar Estrela Radiosa da Manhã, ou em latim, Lúcifer “aquele que traz a luz”, nome do planeta Vênus quando surge no leste. Portanto, João o Divino ou o Filósofo associa Jesus a Estrela da Manhã. Resumindo: Eu, Jesus, sou o Lúcifer.

Durante a Idade Média, o diabo sofreu uma tremenda transformação, que o próprio Ovídio não teria imaginar. De Anjo de Luz e promotor público celestial, passou a ter chifre, rabo e habitar o inferno grego (o inferno com fogo e tormenta). A partir da Idade Média, tudo de ruim no mundo começou a ser associado ao diabo, novo nome de Satã.

Literatura: A Bíblia foi escrita por escribas que tinham pouco ou quase nenhum conhecimento cientifico e literário. Séculos depois dos acontecimentos resolveram colocar no papel lendas antigas, misturadas com noções de moral, mitologia, História, dúvidas e formar o que é hoje, o livro mais vendido do mundo.

Se Dante Alighieri tivesse escrito A Divina Comédia, em Jerusalém, talvez sua obra entraria no Cânone que aprovou os livros “inspirados por Deus”. Até o ateu José Saramago, com seu polêmico Evangelho de Jesus Cristo, teria um lugar no Cânone? Dr. Fausto de Goethe, seria uma narrativa zoroastra?

Conclusão: Vamos deixar o diabo quieto no seu lugar. Deixem os mortos enterrados e vamos viver a vida como ela é de fato. É muito fácil jogar a culpa no diabo para não assumirmos nossas faltas e omissões diante dos problemas de nossas vidas e do mundo. É fácil jogar a culpa num ser do outro mundo, que pertence ao “panteão hebraico”, para podermos ficar de baços cruzados bocejando diante dos problemas do mundo. Devemos adotar o antropocentrismo, e deixar o diabo viver o seu reino.

Deixem o diabo onde ele está. Se ele existe, fato que não acredito, ele não está preocupado com nossa vida medíocre que vivemos no mundinho do Matrix.
1- NOGUEIRA, Carlos Roberto F.,O diabo no imaginário cristão. Ed. Ática. São Paulo/SP,1986, página 10.
2- KELLY, Henry Ansgar., Satã – uma biografia. Ed. Globo, São Paulo/SP, 2008.
3- Zc 3,1.
4- Livro de Jô.
5- Livro de Jô.
6- HECTH, Jennifer Michael. Dúvida, uma história. Ed. Ediouro, Rio de Janeiro/RJ, 2005.

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